História do(s) Movimento(s) Feministas

O que é o Feminismo?

O feminismo é um movimento reivindicativo que tem origens, segundo algumas teorias, no Iluminismo – embora haja divergência de pensamento e alguns historiadores reconheçam o termo feminismo apenas ao movimento moderno e seus descendentes, sendo as lutas anteriores categorizadas como protofeminismo.

SABIAS QUE…

A escritora francesa Christine de Pizan (1364 – 1430), que viveu no período da Idade Média defendeu em seu livro, “A Cidade das Mulheres”, a igualdade natural entre os sexos e a educação idêntica à meninos e meninas. Christine pode ser considerada uma das pioneiras no movimento feminista universal, por apresentar um discurso à favor da igualdade entre os sexos já no século XV. O feminismo tem como meta os direitos e deveres iguais entre homens e mulheres e envolve diversos movimentos, teorias e filosofias – todas preocupadas com as questões de género.

O feminismo tem alterado as perspetivas predominantes em diversas áreas da sociedade ocidental – indo desde a cultura até o próprio direito.

Algumas das reivindicações o movimento feminista são: o direito legal das mulheres (como o direito ao voto); o direito de sua autonomia e integridade de seu corpo; o direito ao aborto; os direitos reprodutivos (incluindo-se aqui o acesso a contracetivos) e a proteção da mulher contra violência doméstica e assédio sexual.

Também luta pela igualdade de salários e os direitos trabalhistas.

AS VÁRIAS ONDAS DE FEMINISMO

Desde a década de 1980 o movimento feminista tem se preocupado em examinar como a desigualdade enfrentada pelas mulheres se relaciona com o racismo, a homofobia, o classismo e a colonização.

De acordo com Maggie Humm (professora de Estudos Sociais em Londres) e Rebecca Walker (autora premiada), a história do feminismo pode ser dividida em três “ondas”. A primeira teria ocorrido no século XIX e início do século XX, a segunda nas décadas de 1960 e 1970 e a terceira na década de 1990 até a atualidade.


A Primeira Onda

O termo “primeira onda” foi cunhado em março de 1968 por Marsha Lear ao escrever na The New York Times Magazine, que ao mesmo tempo também usou o termo “segunda onda do feminismo.”

A primeira onda do feminismo refere-se a um período extenso de atividade feminista, durante o século XIX e início do século XX – tendo sua grande marca em países como França, Reino Unido, Canadá, Países Baixos e Estados Unidos.
Tinha o foco originalmente na promoção da igualdades em direitos contratuais e de propriedade; além de se opor também aos casamentos arranjados e a retirada da propriedade das mulheres casadas.

No final do século XIX, entretanto, o ativismo passou a se focar ainda mais na conquista de poder político – muito influenciado pela Revolução Francesa – especialmente no que se dizia ao sufrágio por parte das mulheres. Isto é, em termos gerais, do direito ao voto.

Ainda assim, mulheres como Voltairine de Cleyre (ativista americana) e Margaret Sanger (enfermeira, sexóloga e ativista) já faziam campanhas pelos direitos sexuais, reprodutivos e econômicos das mulheres. 

(Você sabia?) As origens políticas do feminismo vieram da Revolução Francesa – evento que elevou as igualdades jurídicas, as liberdades e os direitos políticos como objetivos centrais. Entretanto, e é neste ponto que se tem um grande marco da luta das mulheres, os direitos e a igualdade legal que foram conquistados não afetaram as mulheres. Assim, na Revolução Francesa, a voz das mulheres começou a se expressar coletivamente.

Alguns marcos da primeira onda

1809 – EUA, Connecticut: Mulheres casadas foram autorizadas a ter propriedade;

1811 – Suécia: As mulheres de negócios casadas tiveram o direito de tomar decisões sobre seus próprios assuntos sem o consentimento do marido;

1827 – Brasil: Foram abertas as primeiras escolas primárias para raparigas e a profissão de professora;

1842 – Suécia: Início da escolaridade obrigatória para ambos os géneros;

1893 – Nova Zelândia: Tornou-se o primeiro país autônomo do mundo no qual todas as mulheres tinham o direito de votar nas eleições parlamentares.


A Segunda Onda

A segunda onda do feminismo foi um período que teve início na década de 1960 até o início dos anos 80, tendo seu marco principal a publicação, em 1963, de “The Feminine Mystique”, por Betty Friedan – considerada a “Mãe” da segunda onda feminista – e a publicação do relatório sobre desigualdade de género, pela Comissão Presidencial do Presidente John F. Kennedy.

Alguns eventos importantes ocorreram para que a segunda onda do feminismo pudesse acontecer, entre eles, foi a publicação do livro de Simone de Beauvoir “Segundo Sexo”, onde a escritora francesa examina a noção de que as mulheres eram vistas como “outras” na sociedade patriarcal; concluindo que a ideologia centrada nos homens era aceita como uma norma.

Enquanto que a primeira onda do feminismo se focou em derrubar os obstáculos legais à igualdade de género (como, por exemplo, o direito ao voto), a segunda onda do feminismo ampliou o debate ainda mais.

As feministas da segunda onda observavam as desigualdades culturais e políticas como intrinsecamente ligadas e incentivavam as mulheres a entender os aspectos de suas vidas pessoais como profundamente politizados e como o reflexo de estruturas de poder sexistas.

Sabias que…

A autora feminista Carol Hanisch cunhou o slogan “o pessoal é político”, que se tornou sinônimo da segunda onda.

Entre as questões mais abordadas na segunda onda, se fazia presente: a sexualidade, a família, o mercado de trabalho, os direitos reprodutivos, as desigualdades na prática e as desigualdades legais.

Estes movimentos começaram a chamar atenção, também, para as questões da violência doméstica e dos problemas de estupro conjugal – a ideia de que a mulher não poderia negar o sexo ao seu marido. Além disso, lutas pela criação de abrigos para mulheres maltratadas e por mudanças nas leis de custódio e divórcio, começaram a ganhar mais força.

Muitas historiadoras tem o início dos anos 1980 como o fim da segunda onda feministas, quando os temas como sexualidade e pornografia inauguraram a terceira onda do feminismo.

Alguns marcos da segunda onda

1960 – EUA: Aprovação da pílula contraceptiva oral;

1961 – EUA: Mobilização de 50.000 mulheres, em mais de 60 cidades, pelo Women Strike for Peace;

1963 – EUA: Equal Pay Act – lei trabalhista dos Estados Unidos com o objetivo de abolir a disparidade salarial baseada no sexo;


A Terceira Onda

A terceira onda do feminismo começou logo no início da década de 1990 e se propaga até os dias atuais. Veio principalmente como uma respostas às “falhas” da segunda onda assim como também uma retaliação pelos movimentos criados na mesma.

Visa desafiar – ou evitar – aquilo que se vê como os estereótipos da feminilidade assim como o ênfase colocado nas experiências das, apenas, mulheres brancas de classe média-alta que compuseram a segunda onda. É a percepção de que as mulheres são de “muitas cores, etnias, nacionalidades, religiões, e origens culturais”.

Os defensores da terceira onda do feminismo afirmam que ela permite que as mulheres definam o feminismo para si, incorporando suas próprias identidades no sistema de crenças que é o feminismo e que ele pode se transformar através da própria perspectiva.

A terceira onda teve suas raízes quando feministas como Gloria Anzaldua, Bell Hooks e Audre Lorde – assim como diversas outras feministas negras – procuraram encontrar um espaço dentro da esfera feminista para a consideração da subjetividades relacionadas à raça.

Na verdade, o feminismo da terceira onda embarcou totalmente em ideias como a da teoria queer e começou o trabalho de abolir as expectativas e estereótipos baseados no género. 

Sabias que…

Quem cunhou o termo “terceira onda” do feminismo foi a escritora e ativista norte-americana Rebecca Walker em um ensaio de 1992. Ela também se tornou um símbolo do foco da terceira onda, trazendo o feminismo também para a luta das mulheres queer e não-brancas.

Também foi a época em que os primeiros embates entre teorias feministas começaram a se fazer mais presentes; um dos mais conhecidos foi o chamado “feminismo da diferença”, cujo importante expoente foi a psicóloga Carol Gilligan.

Este ramo do feminismo defende que há importantes diferenças entre os dois géneros, enquanto que outros ramos defendem que não há diferença inerentes entre homens e mulheres e que os papéis atribuídos para cada género são o que instauram, socialmente, a diferença.

FEMINISMO EM PORTUGAL

O feminismo em Portugal constituiu-se por uma luta intensa, com nomes que se destacam como Ana de Castro Osório (escritora do primeiro manifesto feminista português), Adelaide Cabete (médica e uma das principais feministas portuguesas), Carolina Beatriz Ângelo (a primeira mulher a votar no país), entre outras.

Um dos seus marcos iniciais foi a constituição da Federação Socialista do Sexo Feminino e a criação, em 1907, do Grupo Português de Estudos Feministas – inclusive sob a direção de Ana de Castro Osório. Esta, conduziu a formação, em 1908, da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

Portugal foi o primeiro país do sul da Europa em que uma mulher exerceu o direito do voto. Eram tido como votantes todos os cidadãos maiores de 21 anos e chefes de família que soubessem ler e escrever – entretanto, a legislação não especificava o sexo deste “chefe de família.”

Foi utilizando desta lógica que Carolina Beatriz Ângelo exerceu esse direito em 1911.

Entretanto, posterior a este acontecimento, em 3 de Julho de 1913, a lei eleitoral se modifica, definindo que os eleitores poderiam ser apenas os do sexo masculino.

A Europa da época de 1933 e 1970 foi repleta de ditaduras. Entre elas se encontra o salazarismo que, como todas as outras em questão, combatia as “ameaças” da sociedade como a industrialização, o comunismo, o republicanismo e, obviamente, o próprio feminismo.

Foi uma época de recuo no que se diz respeito aos direitos humano; a visão da mulher na sociedade se tornou um elemento chave na formação ideológica.

Em uma sociedade impregnada por valores religiosos, o campo de atuação da mulher se tornou extremamente limitado, se restringindo ao lar e à família, tendo no âmago de seus valores a tradição e o nacionalismo.

Os ideais de que a mulher nasce condicionada aos trabalhos domésticos e à função de educadora de sua família, se tornaram ainda mais presentes, reduzindo a natureza da mulher a apenas um incentivo à natalidade, com a sua total exclusão no trabalho.

Salazar utilizava de slogan como “A mulher pelo lar”, buscando afastar as mesmas de sua própria emancipação para que estar pudessem se dedicar inteiramente à sua família, ao seu lar e à sua “missão” de “dar a luz.”

Apesar do golpe que a luta feminista sofreu com a época ditatorial, em 2004, as feministas portuguesas comemoravam o 80º aniversário do primeiro Congresso do movimento feminista no país.

Questões como aborto e sexualidade voltam a ser debatidas com mais atividade, o direito ao próprio corpo e a desigualdade entre os géneros passou a ser tema central dos trabalhos feministas.

Entretanto, foi apenas em 2014 que se notou, de fato, um “renascimento” do movimento feminista em Portugal, com a criação da plataforma, abertamente feminista, Maria Capaz, que se identifica como uma “associação feminista que visa promover a informação e a sensibilização da sociedade para a igualdade de género, defesa dos direitos das mulheres e empoderamento das mesmas, definindo-se assim como entidade promotora de uma ocupação igualitária das mulheres no espaço público.”

(Você sabia?) A Maria Capaz ou simplesmente “Capazes” é uma associação feminista, criada em 2014 pelas apresentadoras de televisão Iva Domingues e Rita Ferro Rodigues. No seu primeiro mês online a plataforma atingiu um milhão de visualizações.

Porquê do dia 8 de março

A história mais comum, que remete à criação do Dia Internacional da Mulher, se refere à um incêndio ocorrido em uma fábrica têxtil de Nova York, em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas.

É óbvio que o incidente ocorrido no dia 25 de março daquele ano teve um marco na luta feminista, entretanto o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado por socialistas americanas e europeias desde algum tempo antes, sendo ratificado por Clara Zetkin.

Desde o final do século 19, organizações feministas – provindas do movimento operário – protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos por melhores condições de trabalho e melhores salários, além do fim do trabalho infantil.

O primeiro Dia Nacional da Mulher foi celebrado em 1908 nos Estados Unidos, onde cerca de 1500 mulheres se uniram em uma manifestação em prol da igualdade económica e política.

O Partido Socialista dos EUA oficializou, no ano seguinte, a data como sendo 28 de fevereiro e, neste dia, reuniu-se um protesto com mais de 3 mil pessoas no centro de Nova York e culminou, em final de 1909, em uma longa greve das fábricas têxtil.

A resolução para se criar uma data anual para a celebração dos direitos da mulher se deu em 1920, em uma conferência na Dinamarca, onde mais de 100 representantes de 17 países aprovaram a celebração.

O objetivo principal era honrar as lutas feministas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal.

Com a chegada da Primeira Guerra Mundial, mais protestos passaram a eclodir em todo o mundo. Entretanto, em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário russo da época), 90 mil operárias russas se manifestaram contra o Czar Nicolau II e as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra.

Este protesto ficou conhecido como “Pão e Paz” e foi, então, que a data de 8 de março se consagrou, embora só tenha sido oficializada como Dia Internacional da Mulher em 1921.

Foi apenas 20 anos depois que a ONU assinou o primeiro acordo internacional que afirmava os princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos de 1960 o movimento feminista passou a ganhar força e, em 1977, o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas

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