Despertar Consciências: Marielle Franco

            É 19 de fevereiro de 2018, entra em vigor o decreto que permite a intervenção federal na segurança pública do estado do Rio de Janeiro. Nove dias depois, Marielle Franco, quinta vereadora mais votada do município, é nomeada relatora da comissão que fiscalizaria tais ações.

            Em 10 de março, Marielle faz apelo em rede social pelo fim do abuso de poder da polícia militar, denunciando o caso de Acari¹, e, três dias depois, repete-o. É 14 de março de 2018: Marielle e seu motorista, Anderson Gomes, são assassinados no Rio de Janeiro.

            A questão torna-se ainda mais complexa quando se tem em mente que Marielle era mulher feminista negra lésbica favelada. Sem vírgulas. Marielle tinha consciência de todos os seus papéis e suas lutas conversavam por serem reprimidas na sociedade. Além disso, Marielle era ativista dos direitos humanos, denunciava a violência policial no Rio de Janeiro, dava voz aos que ninguém queria ouvir: jovens negros pobres favelados. Marielle buscava fazer valer o Artigo 7 da Declaração dos Direitos Humanos: “Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.(…)” E morreu pela mesma coisa que defendia.

            A política brasileira, representada esmagadoramente por homens brancos, não quer ouvir a periferia. Ela quer perpetuar a sociedade patriarcal, reprimindo, ainda mais, grupos à margem da realidade. E foi exatamente por isso que Marielle foi assassinada. Ela trabalhava para dar voz a quem é historicamente oprimido, a quem tem seus direitos sucateados, a quem é parado na rua por causa da cor da pele, a quem sofre diariamente com os abusos da polícia militar, a quem aguenta, dia após dia, a conservação de uma política que não os abarca e não os integra e que, pelo contrário, os quer ver longe desse espaço.

            É essa política que não aguenta ver soluções legais e democráticas ganhando lugar e dando poder de fala a quem nunca o teve. Foi essa política brasileira, estrutura mais complexa do que se pode imaginar, que se incomodou quando Marielle foi nomeada relatora da comissão encarregada de fiscalizar a ação militar no Rio de Janeiro. A voz de Marielle estava crescendo, ecoando e incomodando, contestando a lógica da casa grande e da senzala² tão enraizada no Brasil, e estava para ser ainda mais ouvida em todo o país. Cortaram a voz da Marielle, mas, quase como em efeito dominó, surgiram milhares dispostos a gritar por e com ela. Surgiram vozes querendo perpetuar seu trabalho e impedir que sua morte tenha sido em vão.

           A onda revolucionária que foi acesa no Brasil é agora muito mais incisiva e intolerante à impunidade. Marielle, presente! ¹ A Comunidade do Acari, situada na Zona Norte do Rio de Janeiro, tem sido palco de atrocidades cometidas pelo 41° Batalhão da Polícia Militar. De acordo com relatos, os agentes entram nas casas sem permissão, aterrorizam e ameaçam a população e são responsáveis por um alto número de assassinatos no local. Casos de bala perdida também são recorrentes e há um alto número de vítimas em operações policiais. ² Casa-Grande & Senzala é um livro do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre publicado em 1933 que busca evidenciar a construção da sociedade patriarcal no Brasil. O autor o faz a partir de uma análise de estruturas da época colonial que abrigavam as famílias poderosas e os escravos. Segundo ele, a casa grande reproduz a lógica de dominação sobre a senzala em todas as áreas da vida e, ao mesmo tempo, afirma que a miscigenação é a responsável por harmonizar as diferenças sociais.

 

Luiza Melo