Um olhar sobre o conflito Israel-Palestina

O conflito entre Israel e a Palestina não é nenhuma novidade, contudo o “gatilho” para a escalada de violência das últimas semanas teve início em 10 de maio, quando famílias palestinas de Sheikh Jarrah [1], passaram a sofrer ameaças de serem despejadas.

Não apenas isso, mas houve também uma violenta repressão dos palestinos que protestavam em solidariedade às famílias ameaçadas de despejo. Isto ocorreu durante o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, e dentro da mesquita de al-Aqsa, o lugar mais sagrado para os muçulmanos depois de Meca e Medina.

Após esses incidentes o Hamas [2], o grupo extremista palestino que controla a Faixa de Gaza, deu um ultimato à Israel para retirar suas forças de al-Aqsa e de Sheikh Jarrah. Israel ignorou o pedido e o Hamas passou a disparar foguetes contra cidades israelenses que, protegidas pelo chamado “Domo de Ferro”, não sofreram tanto com as investidas. Em contrapartida, a Palestina tem sido alvo de vários ataques israelitas, que vêm ceifando a vida de diversos civis, entre eles mulheres e crianças.

A guerra Israel-Palestina é antiga e complexa. Tudo começou com a idéia de se criar um “Estado Judeu”, inicialmente de forma um tanto quanto anti-semética, mas que após a segunda guerra mundial e os horrores do holocaustro (e todo o anti-semitismo que eles sofreram na Europa por séculos em voga), passou a ter um carácter humanitário. O principal problema, entretanto, era onde seria o país judeu, afinal é difícil encontrar lugares que já não estejam ocupado por alguma outra cultura.

Aproveitando-se de um movimento interno e independente dos judeus de comprar casas e terras na Palestina, para ter um lugar próprio na terra santa, o Reino Unido, que estava no controle de parte do Oriente Médio seguindo o controverso acordo de Sykes Picot, sugeriu ceder parte da região da Palestina para o novo Estado de Israel. Assim, em 1947 a ONU recomendou a divisão da Palestina entre um Estado Judeu, um Estado Árabe e, além disso, com a cidade de Jerusalém sob direção direta da ONU, principalmente por esta ser considerada uma terra santa tanto pelos judeus, quanto pelos mulçumanos e pelos cristãos.

Os judeus e a maioria da comunidade internacional concordou com o que ficou conhecido como “Two States Solution”, ou “Solução de dois Estados”, mas, crucialmente, aqueles que primordialmente viviam na terra, os árabes e palestinos, não o aceitaram, gerando uma variedade de guerras. Inclusive, a guerra árabe-israelense de 1948, conhecida pelos palestinos como Nakba (palavra árabe para “desastre”), resultou na expulsão de cerca de 711.000 palestinos dos territórios que, futuramente, se tornaram o Estado de Israel. As vitórias contínuas de Israel forçaram o Egito, o seu principal adversário, a reconhecê-lo como Estado, fazendo-o perder prestígio na comunidade árabe. Alguns países como a Síria nunca reconheceram Israel e, portanto, Israel ocupa militarmente as Colinas de Golã até hoje.

Em seu plano colonialista e de expansão territorial, Israel ocupou o território da Palestina à exceção da faixa de Gaza e da Cisjordânia, que acabaram por se tornar áreas extremamente densas devido a todos os refugiados palestinos. A Cisjordânia tem como líder a chamada “Autoridade Nacional Palestiniana”, partido mais moderado, mas que ainda procura restabelecer a posse da terra da qual foi expulsa. A faixa de Gaza, por outro lado, tem em sua liderança o grupo Hamas, entidade mais extremista, que tem em seu juramento o comprometimento em destruir Israel.

Eventualmente, Jerusalém também foi ocupada por Israel e, inclusive, declarada como sua capital – embora tenha perto de nenhum reconhecimento internacional, tirando os dos Estados Unidos. São utilizadas diversas formas para expulsar os palestinos de Jerusalém, sendo a mais recente uma lei da época otomana que expulsou os judeus vivendo naquela parte da cidade 200 anos atrás. Além disso, Israel envia diversos colonizadores para a Cisjordânia, na tentativa de ocupar as terras que lá estão e, eventualmente, tomar posse para si ao ter a maioria judaica na região.

A expansão israelita em território palestino é um dos principais motores para as guerras que eclodem na região. Mesmo que a polícia pareça tentar impedir a violência e evitar confrontos, há claramente uma diferença no modo como cada grupo é tratado. Quando a origem do tumulto vem dos palestinos, a prisão é imediata, todavia, quando os israelitas iniciam o confronto, ainda mais quando são os colonizadores da região da Cisjordânia, a polícia apenas dispersa o confronto, pede para que todos saíam da região e não há registros de presos.

Essa discrepante diferença de tratamento é refletida muito além que meros confrontos; ao exilar o povo palestino e enviar os colonizadores para adquirirem mais terras, é visivel que está se tornando um estado de apartheid. Sobre essa mesma discussão, em 1961 o primeiro-ministro Sulafricano arquiteto do Apartheid, Hendrik Verwoerd, declarou na ONU que Israel não podia votar contra o Apartheid por também ser um.

Essa situação, de exílio dentro do próprio país, de perder as terras que antes eram nomeadas como lar e de sufocante impotência ante a um opressor, faz com que um grupo de pessoas voltem-se ao extremismo como único modo de procurar reverter a situação e ter o país de volta.

Atualmente, Israel está a passar por uma fase de reestruturação política, onde governantes israelenses pretendem fazer uma nova coligação sem a participação de Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro, também conhecido como “protetor de Israel”. Tal coligação marca o início de uma nova era para o governo, uma vez que conta com a parceria entre ex-aliados de Netanyahu, políticos considerados linhas duras da direita, centristas e membros da esquerda. Além dessa inusitada mistura, pela primeira vez, uma coligação terá o apoio do partido árabe Ra’am, cujo líder prometeu um maior envolvimento dos cidadãos árabes na política do país. Para que um novo governo possa tomar posse, a nova coligação precisa ser votada pelo parlamento, marcada para o início de junho. 

Esse movimento, marca uma forte tentativa de afastamento de Benjamin Netanyahu do governo, uma vez que este está no poder desde 2009, sendo, portanto, o político a ocupar por mais tempo o cargo. A passagem de Netanyahu pelo governo é marcada por tentativas frustradas de promover um governo de unidade. Em 2020, tentou formar uma aliança com Benny Gantz, líder do partido Azul e Branco, porém a parceria não surtiu efeitos e mais conflitos internos emergiram, resultando na marcação de novas eleições para março de 2021. 

Sendo assim, a história do protetor de Israel parece mesmo está a chegar a um fim, Yair Lapid, líder do partido de centro Yesh Atid, dividirá o cargo de primeiro – ministro com Naftali Bennett, líder do partido religioso de extrema direita Yamina, caso a nova coligação seja mesmo aprovada pelo Parlamento. A proposta seria de Bennett ficar à frente nos dois primeiros anos e depois Lapid nos outros dois restantes. 

Em contrapartida, o Estado da Palestina assinou, em 2018, um acordo de cooperação em segurança com a Turquia, que entrou em vigor apenas em junho de 2021, após fortes declarações por parte do governo turco em defesa ao Estado da Palestina sobre as recentes agressões israelenses na Faixa de Gaza. O acordo prevê o treinamento das forças policiais palestinas na Academia da Guarda Costeira e na Gendarmerie na Turquia. Consultorias a fim de promover a capacitação das forças policiais palestinas, a troca de inteligência para o combate ao terrorismo, a lavagem de dinheiro, crimes cibernéticos e trafico humanos, também fazem parte dos efeitos do acordo.  Esse câmbio de informações faz parte de uma nova fase de aproximação entre as duas nações. 

Essas constantes alterações governamentais e legislativas, fazem com que o clima de incerteza continue a pairar no ar. Por um lado, os israelenses possuem uma nova esperança de, finalmente, conseguirem um governo de unidade e por outro os palestinos se veem obrigados a realizar diplomas, cujo objetivo principal é o de capacitar suas forças de segurança. Sendo assim, a dúvida que fica não é a de quando esse conflito irá ter um fim e sim quais serão os próximos passos de ambas as nações e qual caminho a comunidade internacional irá seguir: o da promoção da dignidade humana e do repúdio às constantes violações dos direitos humanos em conjunto com embargos e sanções aos países que parecem adotar tais medidas como as mais eficazes ou o caminho da promoção das disputas de territórios e de influência no Oriente Médio. 

[1] Bairro que se situa fora dos muros da Cidade Velha de Jerusalém

[2] O maior dentre os diversos grupos de militantes islâmicos da Palestina.

Texto por Carolina Coelho, Bianca Cardozo e Bruno Atella

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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