Menstruar não é um luxo

Simone de Beauvoir, em “O Segundo Sexo”, conta como os Anglo-Saxões designavam a menstrução de “a maldição” (‘the curse’) ou como, no Levítico, estava prevista a condenação de sete dias ao homem que tivesse relações sexuais com uma mulher durante o seu “estado de impureza”. A história leva-nos para inúmeras realidades onde uma mulher menstruada era uma praga, uma impureza e um pecado.

Por mais ultrapassadas que possam parecer estas afirmações, a verdade é que tabus e estigmas em torno da menstruação ainda são uma realidade. Em 2019, a campanha do governo de Benjamin Netanyahu, em Israel, encomendou anúncios no valor de 250 mil euros para promover o banho ritual que, conforme a lei judaica, as mulheres devem tomar depois da menstruação para recuperar a pureza e poderem ter, posteriormente, relações sexuais.

A menstruação, ainda hoje, é motivo de repulsa. Quantas pessoas não se chocariam (e até repugnariam) com parte da obra “Libido Uprising”, de 1989, da fotógrafa Jo Spence? Com um vasto trabalho em fotografias documentais sobre temas socialistas e feministas, a artista tentou com esta obra desafiar os espectadores de que é preciso criarmos novos olhares sobre a menstruação.

A dignidade menstrual é um direito humano que é negligenciado em todo o mundo. Mesmo em países onde se pode considerar que as mulheres têm mais liberdade e a sociedade é mais informada quanto ao ciclo menstrual, o período ainda é um tabu. Consequentemente, esta estigmatização leva a que este importante direito das mulheres (como tantos outros) não seja tido em conta e, logo, que não sejam fornecidos meios e recursos necessários para que as mulheres possam passar por este ciclo com toda a dignidade a que têm direito. A série “O Meu Sangue”, disponível na RTP Play, através de relatos de pessoas adultas que não sabiam o que era o período quando lhes apareceu, de crianças já muito informadas sobre o ciclo, de  homens com útero ou de mulheres sem útero, mostra-nos diferentes realidades de como o preconceito à volta do período é vivenciado em Portugal.

Enquanto parte do mundo tenta combater o tabu através de medidas de normalização (como temos os exemplos da campanha #femojis da marca de produtos de higiene BodyForm, com o objectivo da inclusão de ‘emojis’ relativos à menstruação, ou o anúncio publicitário “Viva La Vulva” da marca Libresse), outra parte lida não só com o estigma, mas também com a exclusão das mulheres da sociedade nos mais diversos níveis e com a falta de acesso a produtos e a recursos.

A pobreza menstrual é descrita, pela ActionAid, como um “problema global que afecta mulheres e meninas que não têm acesso a produtos sanitários seguros e higiénicos e/ou que são incapazes de administrar a sua menstruação com dignidade, às vezes devido ao estigma e às sanções da comunidade”. 

Nos cinco dias de sangramento dos 28 que dura, por norma, o ciclo menstrual, as cerca de 500 milhões de mulheres afectadas pela pobreza menstrual têm de substituir os pensos higiénicos por papéis, cartões, jornais, meias ou qualquer outro tecido já velho, ou usar repetidamente os mesmos pensos. Daqui podem advir alguns dos  problemas na saúde física, como infecções vaginais ou urinárias, podendo culminar em insuficiências renais, infertilidade ou morte por choque séptico. As consequências têm também repercussões na saúde mental, pela vergonha que advém dos tabus construídos culturalmente quanto à menstruação.

Assim, a falta de recursos e a vergonha cultural fazem com que muitas meninas sejam impedidas de ir à escola ou muitas mulheres de ir trabalhar e, consequentemente, conduz à falta de independência e à subordinação histórica das mulheres face aos homens. O documentário “Period. End of Sentence”, disponível na Netflix, ilustra-nos como esta é a realidade da maioria das mulheres na Índia: abandonam os estudos e nunca procuram trabalho não só pela vergonha mas também por não terem condições fora das suas casas para se higienizarem, não existe educação para o que é a menstruação nem informação de como usar os produtos adequados e o preço elevado dos produtos menstruais faz com que se tenha de recorrer a outras soluções que podem ser nocivas para a saúde dessas mulheres. 

Aliás, chega-se mesmo ao ponto de as mulheres serem completamente isoladas da sociedade, como é o exemplo da prática nepalesa “chaupadi”, onde são colocadas em “cabanas menstruais”, enquanto estão com o período, por serem consideradas “impuras” e poderem trazer azar à família. Esta tradição não só é nefasta pela condição de isolamento durante dias, como culmina em muitas mortes por factos secundários. Recordemos a morte de uma jovem de 21 anos por asfixia depois de se tentar aquecer o espaço para onde tinha sido mandada. Embora esta prática tenha sido proibida desde 2005, a realidade é que ainda continua a ser praticada, o que nos prova que medidas legislativas nunca serão suficientes se não forem acompanhadas de educação e informação.

Esta ostracização piora igualmente em locais onde o acesso a instalações e recursos para uma higiene menstrual adequada estão limitados por conflitos armados ou após desastres naturais. Também o facto de 2,3 mil milhões de pessoas viverem sem serviços de saneamento básico agrava a situação. O acesso a água e a saneamento é um direito básico que está a ser vedado a inúmeras crianças e mulheres.

Por todos os problemas que ainda assombram a menstruação, a primeira medida a adoptar, para combater a pobreza menstrual, é sem dúvida a normalização do ciclo normal e natural que mais de 800 milhões de pessoas têm diariamente.  

Desta forma, é importante que a educação, uma arma poderosa nos mais diversos âmbitos, seja vista como uma forma importante para combater a pobreza menstrual. É preciso educar, tanto meninos como meninas, quer em casa, quer nas escolas, para o ciclo normal e natural que é a menstruação. O desenvolvimento de literacia menstrual é crucial para ultrapassar questões básicas como a voz envergonhada, em tom baixinho, com que se diz “período” ou “menstruação”, como se de palavras proibidas se tratassem. 

Para além do activismo através da normalização do período que podemos adoptar no nosso dia (já escrevia Maya Angelou, em “Carta à minha filha”, “tanto faz que o meu excesso seja tangível, dinheiro ou bens, como intangível, porque aprendi que ser caridosa através de gestos e palavras pode proporcionar uma grande alegria e curar sentimentos de mágoa”), a ajuda também é possível através de doações a entidades como ActionAid, The Pachamama Project, Corações com Coroa, entre outras.

Contudo, o altruísmo que cada pessoa pode adoptar individualmente obviamente que não chega se não for acompanhado de medidas políticas, por parte dos Estados (nem seria esse altruísmo necessário se estas existissem eficazmente), que promovam a igualdade menstrual. A pobreza menstrual continuará a ser uma barreira ao alcance da igualdade de género a nível global enquanto continuarem a faltar medidas.

A igualdade e a não discriminação são pilares essencais que norteiam os direitos humanos. As restrições que milhões de mulheres ainda enfrentam na sua vida diária durante a menstruação não se coadunam com os objectivos pelos quais a humanidade declara estar a lutar para a conquista da igualdade, independentemente do género. A discriminação histórica das mulheres perdura e perdudará enquanto se continuar a  menosprezar algo que metade da população teve, tem e terá, durante grande parte das suas vidas.

Enquanto ciclo normal e natural sobre o qual não se tem propriamente controlo, criar condições para a dignidade menstrual é uma necessidade básica e não se pode continuar a ver o período como se de um luxo se tratasse. Todas as mulheres deveriam ter o direito de menstruar com dignidade e segurança.

Texto e Foto por Inês Rua

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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