Ela Chegou e Nem Disse Olá

Ela chegou e nem disse “Olá”. Não pediu permissão.

Não avisou se vinha para ficar ou se estava apenas de passagem.

Chegou e acomodou-se, instalou-se e aos poucos foi-se familiarizando.

Aos poucos foi-se sentindo confortável aqui, aos poucos foi começando a salientar a sua presença.

Ela gosta de aparecer de noite. Entra aos trambolhões. Faz imenso barulho. Começa a fazer perguntas e mais perguntas. Eu digo-lhe que quero dormir, mas ela responde-me que quer brincar. Viro-me para um lado, viro-me para o outro, fecho os olhos, respiro fundo, mas ela continua lá. Faz-me suar, tira-me os lençóis, ela não quer que eu adormeça porque é durante a noite que ela quer saber os “porquês”, as possibilidades, as incertezas, as dúvidas, traz também as memórias já há muito esquecidas. Apesar de não ter forma física, é durante a noite que ela ganha vida. Ganha sombra e ganha voz.

Aparece também nos momentos mais frágeis, mais vulneráveis.

Não é tímida. Nada mesmo.

Adora aparecer quando está muita gente à volta.

É ciumenta, não gosta que esteja perto de muita gente, então faz questão de me mostrar que sou só dela.

Eu acho que até tem ciúmes do oxigénio que respiro, porque às vezes nem o deixa chegar até mim. Ela sufoca-me.

Ela faz o meu corpo tremer todo, gosta de assumir o controlo e, de repente, o corpo já não é meu, é dela. Ela toma-o por completo. Apodera-se.

É controladora, é manipuladora. Faz jogos psicológicos.

Ela também controla os pensamentos. Ela sabe aquilo que me amedronta, aquilo que me assusta.

Ela adora pensar no futuro e no quão incerto ele pode ser.

Adora dúvidas, incertezas e negativismo.

Ela adora frases como “Tu não és capaz”; “Tu não consegues”; “Tu não mereces”; “Isso vai correr mal”; “Não és suficiente”; “Está toda a gente a olhar”.

Ela prende, sufoca, manipula, tira o ar.

Às vezes ela não quer que eu saia da cama de manhã. Ela gosta de me ter. Ela gosta de pensar e pensar e voltar a pensar no mais ínfimo pormenor, porque é viciada em encontrar problemas e dúvidas. Ela adora quando aquilo que poderia correr bem, dá errado. Ela adora solidão. Então ela agarra, aliás, ela acorrenta. Ela incapacita. Ela torna o que um dia foi rotina numa obrigação.

Ela torna o que um dia foi agradável num suplício.

Por vezes ela não tem explicação e não há maneira de explicar.

Ela faz-te ficar confusa, porque tu queres fugir, mas não podes. Tu queres explicar, mas não consegues. Tu ficas com medo de ti própria. Dos teus pensamentos. Como é que se foge de algo que é tão nosso?

Tu queres compreensão, mas ela não dá a cara. Não tem uma forma física. E os outros? Os outros não veem, por isso não acreditam. Desvalorizam. Dizem que são coisas da tua cabeça, e de facto são. Mas esquecem-se que a mente controla tudo. Então, como ter controlo sobre algo que não pode ser controlado? Eles perguntam, “Mas ansiedade de quê?”, como se fosse fácil explicar. A Ansiedade não é um cancro. Não é algo concreto. E tu não sabes o que responder. Não consegues explicar o que sentes, onde te dói. Se não dói, não é doença. Tu pensas e pensas, “Porque é que eu estou ansiosa?”, mas não obténs resposta, ela é silenciosa assim. Tu cansas-te de explicar, porque sabes o que os outros estão a pensar. Que é “manha”. Que é filme. Que é para chamar a atenção. De facto, é, mas a culpa é dela. É ela que gosta de ser o centro das atenções, não tu.

Aquilo que para ti é um monstro, para eles não existe. Tu até chegas a duvidar de ti própria, mas quando o sufoco vem, tu sabes que é real. Que está lá, sempre presente e que por vezes se manifesta sem motivo aparente. E que te incapacita e impede de fazer coisas que tu um dia fizeste sem qualquer problema. Deixas de gostar de fazer coisas que um dia te traziam alegria e conforto.

Mas eles não entendem, eles não conseguem ver que está lá. Não sentem por ti.

Mas eu sinto-te. E sei que me amas, mas eu não te amo de volta, Ansiedade. E quero pedir-te que te vás embora. Também não precisas de dizer “Adeus”, tal como não disseste “Olá”. Apenas vai e não voltes, que aqui não há lugar para ti.

És mesmo tu, não sou eu.

Pára de exigir atenção, pára de me manipular, pára de me enfraquecer.

Vai-te embora, que aqui não há mais nada para ti.

Não quero mais retornos, podes ir, não te preocupes.

Faz-me só o favor de não voltares.

Carolina Menéres.

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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