Dia Mundial da Saúde Mental: Um acordar

Este ano, mais do que nunca, devemos acordar para a importância da saúde mental que é a base do bem-estar geral. Mais do que nunca, se aplica “mente sã, corpo são”. Esta época foi e está a ser de elevada ansiedade, depressão, tempos em que não se sabe o dia de amanhã, tempos de noites sem sono, carteiras sem dinheiro e medo. Portanto está na hora do estigma desaparecer, do nosso cérebro ser tratado como qualquer outra parte do corpo; e é inegável o impacto que a saúde mental tem na pessoa e no funcionamento da sociedade.

A saúde mental não é estática, tal e qual como a nossa vida não o é. O comportamento humano é afetado, inevitavelmente, por situações emocionais relevantes, pelo que a angústia e a dor mental fazem parte do desenvolvimento pessoal e, muitas vezes, revelam sinais de adaptação essenciais.  Passar por um período de sofrimento emocional e tristeza é normal, no entanto, quando a relação com familiares e amigos/as não é suficiente é importante recorrer a apoio especializado. Existem diversas linhas de apoio gratuitas, o médico/a de família tem um papel fulcral e sobretudo os psicólogos/as, que numa avaliação interdisciplinar conseguem melhor avaliar e intervir na situação. E ainda embora os profissionais no âmbito da intervenção na saúde mental sejam de extrema importância, não devemos esquecer as outras áreas de conhecimento e intervenção, nomeadamente no âmbito da prevenção, tais como a psico-educação.

É preciso compreender a doença, como começou, porquê começou, se o tratamento poderá passar por uma terapia ou se se deve fazer por exemplo o acoplamento com medicação adequada à pessoa.  A intervenção precoce, em certos casos, previne complicações futuras e, noutros, facilita a recuperação e a reinserção social nas situações mais crónicas. Por isso temos e devemos de lutar para que, a saúde mental seja valorizada, para que os meios de ajuda estejam acessíveis a todos/as e essencialmente devemos falar sobre o assunto, promover e sensibilizar para a saúde mental ao longo das gerações, especialmente nas escolas. De forma a que, as novas gerações se desenvolvam, aceitem e integrem a sua saúde mental como ponto fulcral; promover estilos de vida saudáveis; promover o reforço de psicólogos/a no Serviço Nacional de Saúde, por exemplo termos um “psicólogo/a de família” assim como temos o/a médico/a de família e ir monitorizando, promover mais psicólogos/as nas escolas e o seu maior envolvimento, entre outros.

Em Portugal as perturbações mentais comuns são uma das principais causas de incapacidade para a atividade produtiva, expressa, por exemplo, pelo elevado número de baixas médicas para a atividade profissional. Simultaneamente somos, há anos, o maior consumidor europeu de benzodiazepinas (os tranquilizantes mais frequentes ou ansiolíticos). O relatório do Conselho Nacional de Saúde (CNS) sobre a Saúde Mental, intitulado “Sem Mais Tempo a Perder: Saúde Mental em Portugal – Um Desafio para a Próxima Década” de 2019, revela também um aumento global no que toca ao consumo de antidepressivos e de medicamentos estimulantes do sistema nervoso. O estudo considera preocupantes os dados do consumo de benzodiazepinas, medicamentos usados para a ansiedade que podem causar dependência se usados de forma continuada. “As benzodiazepinas e análogos são apenas indicados para o controlo de curto prazo da ansiedade e insónia, podendo ter efeitos deletérios se mantidos de forma crónica”, refere o relatório. Porém, estas são prescritas a toda a hora por profissionais de saúde de várias áreas da saúde sem qualquer controlo e sem a avaliação por exemplo de um(a) psicólogo/a.  Na mesma linha, de acordo com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, mais de um quinto dos/as portugueses/as sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%) e é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa. As perturbações mentais e do comportamento representam 11,8% da carga global das doenças em Portugal, mais do que as doenças oncológicas (10,4%) e apenas ultrapassadas pelas doenças cérebro-cardiovasculares (13,7%). O suicídio está entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo — e é a segunda causa de morte para os jovens (entre os 15 e os 29 anos). Então porque não se fala? Porquê não se procura ajuda? Porquê se ignora uma depressão?

Como é que nós podemos ajudar? Podemos ajudar integrando as pessoas seja na escola, trabalho, círculos sociais, ouvindo, mostrando empatia, eliminando o estigma que existe na sociedade. Porém, é essencial o nível macro ser trabalhado. Seria importante criar políticas públicas e sociais de forma a promover o bem-estar em todas as esferas da vida da pessoa: escola, trabalho, vida social, entre outros. Mas também e como supramencionado, reforçando o SNS com psicólogos/as que nos conseguissem acompanhar estejamos nós sem diagnóstico prévio, fazendo uma monitorização, como um médico/a de família, mas também a acompanhar quem tem uma perturbação psiquiátrica e até outras patologias cujo apoio psicológico, podem ajudar bastante seja na superação dos tratamentos, a título de exemplo, a aceitação da doença.  Ainda e extremamente importante é trabalhar na diminuição do consumo de ansiolíticos. Porquê que existe tanto consumo de medicamentos? Porquê que é mais fácil medicar do que tratar? É mais barato comparticipar medicamentos do que criar novos postos de trabalho para os psicólogos atuarem na sua área e tentarem através da psicoterapia ajudar os pacientes?  A terapêutica farmacológica não tem o mesmo impacto, a pessoa muitas das vezes é medicada sem apoio psicológico e isso não resolve o problema, cria um novo – a pessoa torna-se dependente quando devia estar a trabalhar para deixar o medicamento. As próprias consultas de psiquiatria têm um tempo muito curto, chegam a haver consultas com cerca de 20 minutos. Neste período de tempo é impossível avaliar, escutar e dar ferramentas à pessoa para ultrapassar com qualidade. Não há psicólogos/as e o medicamento é mais rápido de facultar e com isso minorar o problema. Faz sentido? A longo prazo mesmo a nível económico é mais barato? Vale o sofrimento das pessoas e a criação de todo um novo problema de dependência? Faz sentido uma pessoa ter um ataque de pânico uma vez na vida e ser medicada com três tipos de medicamentos para a ansiedade potentíssimos sem sequer passar por uma consulta de psicologia e/ou psiquiatria? Sem se perceber se é efetivamente patológico, se é um evento singular ou crónico? Faz sentido o consumo de anti-depressivos em Portugal ser praticamente o dobro que o resto da Europa e ser prescrito num piscar de olhos por um médico de qualquer especialidade? As doenças mentais são importantes, têm tratamentos, protocolos a seguir como qualquer outra doença.  Ou seja, devemos falar sim sobre a saúde mental, e desde muito cedo, devemos também sensibilizar para a importância da ajuda interna do meio que nos rodeia e externa da sociedade em que nos inserimos.  

Temos todos/as um papel importante na nossa saúde mental e do/a outro/a. Para manter uma boa saúde, sabemos quais os hábitos que devemos ou não adotar ou evitar. Tal e qual, como pensamos o que devemos ou não comer, que devemos fazer exercício, não devemos fumar, também, para manter uma boa saúde mental é relevante que tome alguns cuidados. Não se isole, reforce os laços familiares e de amizade e procure nestas pessoas um suporte básico, descanse, mantenha-se intelectual e fisicamente ativo, e não hesite em consultar o seu médico/a e/ou psicólogo/a, perante sinais ou sintomas de perturbação emocional.

O assunto aborda-se há anos, mas a pandemia veio reforçar o debate, e o suicídio de uma personalidade pública em Portugal também veio acender o tema. As pessoas falam abertamente cada vez mais do assunto. O caminho está a começar a ser traçado, mas além de falar é necessário haver mecanismos de apoio gratuitos e de fácil acesso. Até lá, continuaremos a lutar.

Estamos a ACORDAR para a importância da saúde mental e devemos cuidar dela senão, ela tratará de nos destruir e afundar.

Artigo Redigido por: Francisca Matias

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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