O feminismo é livre de preconceitos?

Feminismo é, dito de forma simplista, o movimento sócio-político económico que defende a igualdade plena entre homens e mulheres.

Apesar disso, configura-se muito mais adequado se falar em “Feminismos”, no plural, do que na existência de um feminismo unívoco. Os movimentos feministas são marcados por uma longa variação histórica e espacial, bem como caracterizados por uma pluralidade de correntes e ideologias em constante mutação e adaptação. 

Desde logo, as divergências doutrinárias nos feminismos apresentam-se nas maneiras de se classificar as diversas correntes feministas. Por exemplo, Judith Evans apresenta uma classificação dos feminismos em sua obra “Feminist Theories Today, An Introduction to Second Wave Feminism” em liberais, radicais, culturais, socialistas e pós-modernas. Já Janet Radcliff Richards aponta para a divisão em dois grandes grupos: as liberais e as radicais (dicionário crítica feminista). 

O certo é que, apesar das divergências internas das diferentes vertentes feministas, a base fundadora que as interliga não deixa de ser a mesma: a existência de desigualdades de género que colocam a mulher em uma posição de menoridade em relação aos homens. 

Para dar continuação à discussão importa aqui expor um pouco do que se trata o feminismo radical e quais os motivos que levam a atual discussão e controvérsia em cima do mesmo. 

Esta vertente surgiu na segunda onda do feminismo e veio com a perspetiva de que seria necessária uma reorganização radical da sociedade, extinguindo toda a supremacia masculina dos contextos sociais e económicos. De acordo com o dicionário crítica feminista: o feminismo radical “apela para uma alteração de princípios, defendendo uma nova maneira de estar no mundo e uma profunda alteração no status quo”.

Entretanto, é importante ressaltar mais uma vez que o entendimento de “feminismo radical” não é o mesmo em todas as correntes feministas, nem se manteve inalterado desde a sua criação. O feminismo radical dos dias atuais pauta-se, principalmente, na idéia de abolição de género. 

Atualmente, as feministas radicais enxergam o patriarcado como o principal inimigo da libertação feminina, analisando a sociedade em duas classes distintas, separadas pelo sexo biológico: os homens e as mulheres. Inclusive, é na análise de género que o feminismo radical encontra a opressão sofrida por mulheres, sendo o combate a este e aos seus estereótipos uma das suas principais bandeiras. 

O que muito se argumenta dentro da corrente é que é necessário desconstruir a ideia de que existam diferenças sociais entre homens e mulheres. Para as feministas radicais, hão há um “se sentir enquanto mulher”, não há um “se vestir como mulher”, não há uma “maneira de se expressar e pensar como mulher”. Tudo isso que é relacionado ao sexo feminino não passaria de uma construção social, patriarcal e violenta da representação social da feminilidade.

É desta forma que o feminismo radical reivindica o direito de que mulheres não precisem, e principalmente não devam, reproduzir os estereótipos de género para que sejam reconhecidas enquanto mulheres.

Sendo assim, na vertente que nos debruçamos aqui, o feminismo radical assume uma posição abolicionista de género, ou seja, enxerga que o sexo não deve ser consequência da personalidade; portanto não existiria um “se portar como mulher”, como também não existiria um “se portar como homem”.
É esta postura adotada pelas feministas radicais que vai diretamente contra os ideias da teoria transativista, que, apesar de também enxergar uma relação intrínseca de sexo e género, não busca abolir este último, mas sim, adapta-se a ele. Este último pensamento, para as feministas radicais, se encaixa perfeitamente na lógica sexista de suas teorias.

Talvez seja este o ponto de maior embate atual entre o feminismo radical e as transativistas; por conta desta visão abolicionista do género, muitas feministas radicais têm sido chamadas por uma sigla que, aos poucos, se tornou extremamente famosa: TERF.

TERF ou “trans exclusionary radical feminist”, isto é, feminista radical trans exclusionária, é uma sigla frequentemente mencionada para designar os conjuntos de posicionamentos feministas que são críticos ou hostis à inclusão das questões transgéneras no feminismo. Dentro da comunidade feminista radical há, inclusive, quem chegue a definir a transexualidade como um produto do patriarcado.

Embora não seja um sinónimo de feminismo radical, esta corrente, de fato, parece sustentar muitos argumentos que validam o posicionamento de TERFs.

Dentro da ideologia TERF, o género acaba por ser um sistema que existe especialmente para oprimir as mulheres através da imposição da feminilidade e estereótipos, como da mulher familiar e submissa.

Para muitas feministas radicais, o género com que alguém se identifica não importa — a elas, só é relevante o sexo que foi atribuído no nascimento. Sendo os homens opressores e a fonte da opressão, estes mantém o poder de oprimir, mesmo que passem pela transição. A sua socialização como homem, independente de o quão pouco vivida ou perturbada os torna, fatalmente, agentes da opressão feminina.
É com esta lógica que muitas feministas radicais excluem as pessoas trans, particularmente as mulheres trans, de seus espaços políticos, pretendendo fazê-las viver à margem do feminismo. Entretanto, essa exclusão não é apenas uma discriminação e intolerância, mas é também hipócrita: enquanto as feministas radicais lutam contra a violência sexual, as mulheres trans se encontram como as maiores vítimas não só desta, como também da violência física.

O maior problema dentro desta concepção de género é, justamente, a falta de conexão com o mundo LGBT+. Afinal, a opressão baseada em género pode ser imposta a várias pessoas que foram designadas homens desde o nascimento, como homens gays e mulheres trans. 

Outro ponto que vem sendo bastante criticado dentro da ideologia radical, é o estabelecimento de uma narrativa de que homens trans são, na verdade, apenas lésbicas que buscam se identificar fora da condição submissa de “ser mulher”. Esta visão é, inclusive, essencial ao discurso feminista radical, ao tomar ele como verdadeiro, a transição de género pode ser posicionada como uma forma de “terapia de conversão”, em que uma lésbica é forçada a ter uma identidade masculina e uma heterossexualidade de fato.

São argumentos como estes que abrem um caminho para os ativistas “anti-trans” lutarem pela proibição dos serviços de saúde que cuidam de pessoas trans.

No entanto, contra-argumentando este ponto, os próprios homens trans revelam que esta visão não leva em consideração a autonomia corporal das pessoas transmasculinas, reduzindo-as a lésbicas que, de alguma forma, caíram na armadilha do patriarcado e foram convencidas a tornarem-se homens.

Apesar de todas estas visões serem problemáticas por si só, elas se encontram, também, em uma corrente de pensamentos que, no seu âmago, é anti-feminista. Reduzir homens trans a mulheres que caíram nas garras do patriarcado é assumir que estas pessoas não foram capazes de pensar por si próprias; reduzir mulheres trans a predadores sexuais é ignorar toda a opressão e violência sexual que estas sofrem.

Apesar dos grandes avanços feitos pela comunidade LGBT+ na conquista de direitos, ainda mais em relação aos direitos de pessoas trans, os movimentos crescentes de feministas radicais tem representado uma força contrária, ainda mais agora que, nos Estados Unidos, uma parcela destas feministas radicais têm se aliados com grupos republicanos e conservadores em busca de “diminuir” a influência do transativismo.

Um destes grupos é o “The Women’s Liberation Front” ou, simplesmente, “WoLF”. Ele é uma organização americana formada por feministas radicais e faz parte de uma longa variedade de grupos feministas que rejeitam a existência da identidade trans. O maior argumento utilizado por estas mulheres é de que o avanço dos direitos trans virão ao preço da perda dos direitos e segurança de mulheres cis e de seus “safe spaces”. Um de seus principais ideais é de que mulheres não são apenas um género, mas sim definidas pela biologia e pela vivência, ou melhor, “sobrevivência” de uma infância feminizada.

Assim como outros grupos de feministas radicais, a WoLF tem encontrado uma plataforma cada vez mais influente, nos Estados Unidos, através de uma “parceria” com grupos mais conservadores e da direita.

Um dos resultados dessa maior integração com os grupos republicanos foi a apresentação de terceiros em um dos casos mais importantes do Supremo Tribunal de 2019, argumentando que as proteções contra discriminação baseada no sexo no local de trabalho não devem ser aplicadas a pessoas trans.

Encorajados pelo governo Trump e por uma maioria conservadora na Suprema Corte, os políticos republicanos de todo o país fizeram das questões transgêneros, particularmente aquelas que afetam crianças transgêneros, um alvo importante para 2020. E feministas radicais estão ajudando a reforçar sua mensagem, criando a percepção do apoio bipartidário em um debate social polarizador.

Atualmente, a WoLF tem ajudado, inclusive, a erguer a legislação de certos estados como a Dakota do Sul, que no início deste ano, tornou-se o primeiro estado a avançar uma onda de leis estaduais que proíbem intervenções médicas para jovens transgêneros.

São organizações como estas, e seus participantes, que são frequentemente referidas como “TERF’s”. A maior parte de suas ideologias, como por exemplo que mulheres trans são uma ameaça a segurança de mulheres cis, são baseadas em casos raros e específicos de comportamentos violentos e inaceitáveis executados por um pequeno grupo de pessoas trans.

Acima de tudo isso, essas ideologias não permitem e não consideram a autonomia e autodeterminação de pessoas trans em sua própria expressão de género.

Apesar de soar surpreendente, a afiliação entre feministas radicais e ativistas conservadores está presente na história há muito tempo. Como exemplo, na década de 1980, feministas anti-pornô como Catherine McKinnon e Andrea Dworkin se uniram a conservadores anti-pornô como Edwin Meese, levando à aprovação de leis que censuram o discurso sexual em nome da “proteção das mulheres”. Na última década, feministas anti-prostituição uniram forças com cristãos fundamentalistas para processar profissionais do sexo sob a luz das leis de tráfico sexual.

As questões de entraves entre os transativistas e as feministas radicais, no entanto, se tornam ainda mais presente na internet. A autora do famoso livro “Harry Potter” tem sido atualmente rotulada como não apenas transfóbica, mas também cruel e intolerante.J. K. Rowling twittou em suporte de uma mulher chamada Maya Forstater, que perdeu seu emprego após sugerir que pessoas trans não poderiam mudar o sexo biológico com que nasceram. Entretanto, apesar das críticas, a autora também recebeu muitas mensagens de apoio.

Há alguma argumentação contra a utilização da palavra TERF, insinuando que está é um insulto. O argumento principal é o de que algumas das pessoas que usam o termo TERF o combinam com uma noção violenta. Contudo, muitos termos são combinados com uma retórica violenta e/ou irritada: fascista, racista, democrata, misógino são alguns exemplos. Isso não os torna insultos.

Há também a argumentação de que o termo é impreciso, insistindo que não são trans-excludentes porque incluem homens trans na categoria de mulheres. No entanto, incluir pessoas contra sua vontade em uma categoria que elas rejeitam não é o que normalmente se entende por inclusão.

A questão é que mulheres trans são indubitavelmente marginalizadas. De acordo com algumas pesquisas, 30% das adolescentes trans tentam suicídio e que 72% das vítimas de crimes de ódio anti-LGBT+ são mulheres trans.

Um componente absolutamente essencial dessa marginalização e discriminação é a negação da identidade das mulheres trans como mulheres.

Ao se identificar com o feminismo, as ativistas não deveriam se opor a um dos grupos mais marginalizados de mulheres.

Todas estas questões levantadas sobre o uso, ou não, do termo TERF, na verdade, só desvia a atenção do real problema em questão,. No fundo, o que se verifica é uma disputa pelos direitos das pessoas trans. É isso que precisa ser entendido e colocado em primeiro plano. As palavras que usamos podem ajudar a determinar como esses direitos são modelados e protegidos ou não.

Espremido entre uma estreita ideia sobre a opressão de género e a falta de interseccionalidade em seus discursos, o feminismo radical falha ao não conseguir oferecer à todas as mulheres um caminho real para a sua libertação.

Afinal, além de mulheres, todas nós nos identificamos com diversas outras identidades, sejam estas mãe, negra, latina, parte da comunidade LGBT+, religiosa ou não.

Se o feminismo que propomos não for para proteger todas essas identidades, não lutar, de fato, por todas as mulheres, como podemos, então, nos chamar de feministas?

Texto redigido por Kai Coelho e Carla Chibeni

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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