25 de abril de 1974, o dia em que Portugal voltou a ter uma democracia

No presente contexto, face ao confinamento provocado pelo COVID-19, a evocação da liberdade e a sua celebração, nunca teve tamanha importância como agora. Muitos de nós (provavelmente a maioria dos leitores aqui presentes), nasceu no pós-revolução e nunca vivenciou uma ditadura, daí que, por vezes, não percebamos o impacto que que esta “Revolução dos Cravos” provocou à sociedade. 

Faz 46 anos que a revolução tomou lugar, que ficou marcada como o dia da liberdade e, que transformou por completo a vida dos portugueses. Mais do que liberdade, os cidadãos ganharam uma democracia,  com Direitos, Liberdades e Garantias.

– O ANTES DA REVOLUÇÃO

Até a 25 de abril de 1974, Portugal vivia num regime ditatorial em vigência desde 1933, sistema no qual António de Oliveira Salazar foi a principal figura. Regime que se caracterizava com censura, controlo e repressão total na vida dos portugueses.  Não havia liberdade de expressão. A informação e as formas de expressão cultural eram controladas, fazia-se uma censura prévia que abrangia a Imprensa, o Cinema, o Teatro, as Artes Plásticas, a Música e a Escrita. A atividade política, associativa e sindical era quase nula e controlada pela polícia política (PIDE/DGS). Também, a PIDE vigiava, controlava e registava a vida dos cidadãos. Interceptava correio, telefones, vigiava contactos, viagens, participação em atividades de lazer, culturais, desportivas e especialmente sociais e políticas. Perseguia, prendia, torturava, encarcerava e assassinava cidadãos. Para escaparem a isto, entre 1957 e 1974 mais de um milhão e meio de portugueses saíram de Portugal, a maior parte para França. A atividade política estava condicionada, não existiam eleições livres e a única organização política aceite era a União Nacional/Acção Nacional Popular. A oposição ao regime autoritário era perseguida pela polícia política e tinha de agir na clandestinidade ou refugiar-se no exílio, para não correrem o risco de serem presos.

A Constituição não garantia o direito  basilares dos cidadãos como o acesso universal à educação, à saúde, ao trabalho, à habitação. Não existia o direito de reunião e de livre associação e as manifestações eram proibidas. 

Imperava a visão catequética, dogmática, doméstica e paroquial de tudo e sobre tudo. A economia era indigente e, a miséria institucionalizou-se.

Nos tempos de ditadura …

1- Não havia turmas mistas. E por vezes, as raparigas iam à escola na parte da manhã e os rapazes da parte da tarde;

2- Não havia liberdade de expressão. Não se podia dizer mal do Governo, nem dar a entender alguma opinião contrária. Tudo passava pelo rigoroso ‘lápis azul’ da censura;

3- Não havia direito ao voto livre. E as mulheres só podiam votar se tivessem o ensino secundário;

4 – As pessoas que se casassem pela Igreja não se podiam divorciar;

5- Enfermeiras, telefonistas e hospedeiras da TAP não se podiam casar, e as professoras tinham de ter uma autorização especial. Já para saírem sozinhas do país, todas as mulheres casadas precisavam da autorização do marido;

6- Não era permitido grupos de pessoas juntarem-se para falar ou a discutir ideias. Muito menos podiam existir associações ou reuniões;

7- Os jovens passavam quatros anos na tropa, o serviço militar obrigatório, dois dos quais na Guerra do Ultramar (guerra nas colónias africanas);

8- Não era permitido festejar o Dia do Trabalhador.

O 25 de Abril de 1974 representou uma rutura violentíssima e dramática com este modelo político-social e cultural.

É nesta conjuntura efervescente que os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA), que se vinham organizando e conspirando desde 1973, concretizam em 25 de Abril de 1974, um golpe militar que derruba o regime, que cai sem oferecer resistência significativa e quase sem tiros e vítimas, exceto as que a PIDE havia de fazer entre os populares concentrados frente à sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

– O DIA D: 25 de abril de 1974

Tudo começou na madrugada de 25 de abril de 1974. Várias forças militares começaram por ocupar pontos estratégicos em Lisboa.

Na madrugada do dia 25, militares do MFA (Movimento das Forças Armadas) ocuparam os estúdios do Rádio Clube Português e, através da rádio, explicaram à população que pretendiam que o País fosse de novo uma democracia, com eleições e liberdades de toda a ordem.

Às 5 para as 11 da noite, passa na rádio a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, a primeira senha para o início das operações do MFA. À meia noite e vinte é passada na rádio “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso (segundo sinal a ser transmitido pela Rádio Renascença).

Ao mesmo tempo, uma coluna militar com tanques, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, saiu da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, e marchou para Lisboa. Na capital, tomou posições junto dos ministérios e depois cercou o quartel da GNR do Carmo, onde se tinha refugiado Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar à frente da ditadura.

Durante o dia, a população de Lisboa foi-se juntando aos militares. E o que era um golpe de Estado transformou-se numa revolução. Conta-se que a certa altura, uma vendedora de flores começou a distribuir cravos. Os soldados enfiaram o cravo no cano da espingarda e os civis puseram a flor ao peito. Deste modo, o cravo tornou-se o símbolo do Golpe de Estado e consequentemente, hoje em dia chamamos Revolução dos Cravos. Revolução esta que se caracterizou por ter sido pouco violenta com apenas 4 mortos e poucos feridos.

Ao fim da tarde, Marcelo Caetano (o último Presidente do Estado Novo) rendeu-se e entregou o poder ao general Spínola, que, embora não pertencesse ao MFA, não pensava da mesma maneira que o governo acerca das colónias. 

No entanto, foi só no dia seguinte que as forças militares conseguiram ocupar o Forte de Caxias – esta que foi uma das prisões políticas que mais presos recebeu durante a ditadura. E foi só no dia 27 que os presos políticos foram libertados do Forte de Peniche, que foi uma das mais conhecidas prisões durante o Estado Novo. Foi também nesta prisão que houve a famosa fuga (e a única) de vários presos, incluindo Álvaro Cunhal, em 1960. A 30 de abril foi a vez de libertar os presos em Cabo Verde, na prisão do Tarrafal, conhecida pelas suas fracas condições.

Para além do Capitão Salgueiro Maia, que comandou a coluna de Santarém, outros militares desempenharam papéis importantes no 25 de Abril. Salienta-se o papel do major Otelo Saraiva de Carvalho, que foi o comandante operacional do golpe, dirigindo as operações a partir do Quartel da Pontinha, nos arredores de Lisboa. Durante três semanas, Otelo escreveu em 26 folhas A4, o plano de operações do golpe militar que derrubou quase meio século de ditadura fascista em Portugal.

Um ano depois, a 25 de Abril de 1975, os portugueses votaram pela primeira vez em liberdade desde há muitas décadas.

– CELEBRA O 25 DE ABRIL EM CASA, por isso, se recomenda: 

  • Podcast do Público “Memórias de Lisboa”, histórias de quem viu de perto a Revolução dos Cravos;
  • Museu Nacional Resistência e Liberdade dá a conhecer entrevistas a antigos presos políticos da Cadeia de Peniche (1934-1974), através das suas redes sociais e site;
  • Filme “Capitães de Abril, um retrato da Revolução que mudou a história dos portugueses;
  • As Armas e o Povo”, um dos mais célebres filmes da Revolução portuguesa. Rodado durante a semana entre o 25 de abril e o 1.º de maio de 1974, junta as grandes movimentações de massas aos discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal e a libertação dos presos políticos às entrevistas de rua conduzidas pelo cineasta brasileiro Glauber Rocha;
  • “Salgueiro Maia – O implicado”, filme que conta a história do “considerado o herói e o símbolo mais puro do 25 de abril de 1974” (com estreia marcada para 1 de outubro de 2020).

O 25 de abril tem cravos vermelhos nas espingardas.
Não ouvi tiros.
Toda a gente estava contente.
Eu não quero que se acabe o 25 de abril

Custódio Joaquim, numa redação intitulada “Como eu vejo e 25 de abril”

                 

Texto escrito por Beatriz Ribeiro

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