Uma crise dentro de outra crise – a questão migratória greco-turca

Apesar de, atualmente, muito se falar sobre a atual crise do COVID-19, algumas outras crises — também de caráter gravíssimo — têm ocorrido no  mundo. Uma delas é a crise migratória que se observa nas ilhas gregas, em especial neste período de pandemia.

Quando se pensa nas fronteiras existentes entre a Grécia e a Turquia, costuma-se visualizar a existente fronteira por terra, logo abaixo da Bulgária. Raramente, no entanto, são as vezes em que se recorda das, até 6 mil, ilhas gregas que separam o território pelo mar, sendo que, umas destas ilhas, se encontra a apenas 4 quilómetros de distância da Turquia.

Mapa da Grécia, cor amarela

Estas ilhas contam uma longa e sangrenta história da má relação entre turcos e gregos — perdurando até hoje com estes acusando Recep Tayyip Erdoğan (o atual presidente turco) de usar refugiados como “peões” no seu jogo político, permitindo ou negando a passagem destes conforme lhe convém e os usando como peça de barganha para conseguir acordos e vantagens com a Europa.

Só neste mês de março, centenas de migrantes e refugiados chegaram de barco às ilhas gregas, próximas da Turquia, aumentando a pressão que já existia sobre os centros de imigração. Estas ilhas encontram-se sobrecarregadas de imigrantes; os campos que haviam sido projetados tinham uma capacidade de até 6 mil refugiados, mas só em março, contaram com mais de 42 mil solicitações de asilos. Estes dados, vindos da agência humanitária Médicos sem Fronteiras (MSF) também aponta para o inquietante fato de que 14 mil desses imigrantes são crianças.

A maior parte destes refugiados é formada por pessoas da Síria — que se encontram em fuga da guerra civil que afeta o país já há nove anos — mas uma outra parte também é composta por afegãos, paquistaneses e, até, alguns africanos ocidentais. A crise migratória desencadeada pela entrada ilegal dessas milhares de pessoas tem feito a Grécia reagir com medidas extremas, como, por exemplo, o uso de gás lacrimogéneo que os seguranças utilizam para dispersar as pessoas que solicitam apoio.

O governo grego já não está a aceitar o transporte destes imigrantes ilegais para a Grécia Continental e tem entrado em choque direto com o governo turco que não procura controlar ou diminuir o êxodo, declarando, nas próprias palavras de Erdoğan, que esta é uma “abertura de portas para a Europa.”

Não que a Turquia se encontre numa situação relativamente melhor; este país já abriga 3,7 milhões de refugiados sírios, porém não conta com a infraestrutura necessária para os abrigar. Em 2016, a Turquia chegou a acordo com a União Europeia onde se comprometeu a não permitir que os imigrantes atravessassem as suas fronteiras com a Europa — em troca, receberia os fundos necessários para ajudar na gestão dos grandes números de refugiados. No entanto, Erdoğan tem acusado o bloco de não estar a fazer o suficiente para ajudar os refugiados e, por outro lado, a Grécia tem incriminado o governador de utilizar os migrantes como pressão diplomática.

Uma das respostas encontradas pelo país europeu à pressão dos atuais refugiados, foi de suspender temporariamente o processamento de novos pedidos de asilo daqueles que entraram ilegalmente nas fronteiras. Esta medida foi extremamente condenada por diversos grupos de ajuda humanitária e direitos humanos – como o próprio Médicos Sem Fronteiras, a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch, que pediram aos Estados-membros da UE para discutir e trazer soluções à crise migratória na fronteiro turco-grega. No meio deste vai e vem diplomático e político, diversos refugiados e imigrantes aguardam para receber qualquer ajuda — qualquer visibilidade e reconhecimento, no sentido mais literal da palavra.

É neste clima, de crise e pandemia, que uma cimeira com Merkel e Macron, foi agendada com o presidente turco. O objetivo principal é encontrar uma saída para a atual crise migratória entre os dois países — para alguns, isto é visto como um “ganho” da barganha política que Erdoğan tem feito com os migrantes. Diversos protestos estouraram nas ilhas gregas para que os refugiados sejam transportados para o território continental.

Atenas tem-se comprometido em construir mais campos de refugiados nas ilhas, mas a ONU pede atenção para os danos que o COVID-19 pode vir a causar nestes locais, visto que não se encontram com uma infraestrutura adequada para combatê-lo — ainda mais agora que os refugiados estão em superlotação e que alguns casos já foram confirmados na ilha de Lesbos. Afinal, já se sabe que os campos de refugiados são ideais para a proliferação do novo coronavírus porque concentram uma grande quantidade de pessoas, ainda mais quando se recorda que estas instalações dispõem de infraestruturas precárias ou insuficientes, a exemplo ficam as poucas casas de banho, a baixa higienização e o alto contato entre seres humanos.

Para intensificar ainda mais os empasses, nesta mesma ilha, houve a morte de uma afegã, em dezembro de 2019, devido a um incêndio que eclodiu num contentor e, logo em 8 de março de 2020, mais um incêndio aconteceu, este sem deixar vítimas. São acontecimentos como estes que têm exacerbado ainda mais as já existentes tensões dos campos sobrelotados.

São nestes tempos de crise mundial que os direitos dos mais vulneráveis, dos mais marginalizados, são postos em prova. Refugiados e imigrantes ilegais se encaixam perfeitamente nesta descrição. Toda a sua essência como seres humanos é negada em meio destes jogos políticos que os utilizam como pressão diplomática. No meio de tantas crises atuais que vivemos, inclusive uma nova pandemia, deve-se proteger estas pessoas em situação de riscos; temos que ter um olhar crítico sobre estes eventos, precisamos ter conhecimento do que ocorre com elas. Refugiados e imigrantes não são apenas estatísticas, mas sim, pessoas iguais a todos, são cidadãos, são seres humanos em pleno direito e não devem ser esquecidos.

Turquia e Grécia, infelizmente, compartilham de uma longa e sangrenta história de rivalidade e antagonismo, entretanto já trabalharam em conjunto no passado — principalmente após um terramoto de 1999 que devastou ambos os países e acabou por gerar solidariedade entre os povos e cooperação entre os dois governos. Se numa antiga crise geográfica e social estes dois países já não conseguiram deixar as suas questões de lado, agora não seria a hora de renovar este espírito de solidariedade?

Artigo redigido por Bruno Atella & Kai Coelho

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