Oscars By (Wo)Men

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No passado domingo (09/02/2020) aconteceu a 92ª Edição dos Óscares. Nas últimas semanas muitos foram os comentários acerca dos mais cotados a levar as estatuetas das principais categorias para casa: o Globo de Ouro, os Sindicatos (Guilds), o Critic Choices e, mais recentemente, o BAFTA deixaram bem claro que este ano temos uma corrida com dois claros postulantes “1917” de Sam Mendes e “Parasite” de Bong Joon-Ho, com “Joker” de Todd Phillips e “Once Upon a Time in Hollywood” de Quentin Tarantino correndo por fora. Na madrugada da segunda-feira, o sul-coreano “Parasite” confirmou o seu favoritismo. Dito isso, os indicados deste ano compuseram uma escolha bem diversificada no que diz respeito ao conteúdo e ao tipo de histórias abordadas – é possível, em nove filmes, visitar biografias, adaptações literárias de clássicos, filme baseado em banda desenhada, sátira ambientada num contexto nazista e outros não tão convencionais, que alguns diriam não ter “a cara dos Óscares”. É notável que outros tipos de histórias estão ganhando indicações para os principais prêmios da noite e finalmente sendo reconhecidas (verdade seja dita, essas histórias sempre foram contadas), mas é difícil virar as costas para uma verdade inconveniente – o perfil de quem conta essas histórias é o mesmo, e praticamente não existem histórias redigidas ou até mesmo protagonizadas por minorias.

É impossível falar em cinema sem se iniciar uma discussão sobre arte, o que é e qual o seu papel nos dias atuais. Mais ainda, discutir sobre o papel da mídia e da indústria cinematográfica na sociedade. A discussão é, evidentemente, complexa e pode atingir diversos níveis de profundidade, gerando divergências no próprio meio académico. Entretanto, tendo em conta uma perspectiva ligada aos Direitos Humanos, há quase um consenso quanto à fundamental importância da representatividade para a arte (nomeadamente o cinema, no âmbito em questão) e também para a mídia como um todo. 

Representatividade, enquanto o “caráter do que é representativo” (1), evidencia-se com extraordinária destreza em filmes como “Moonlight”, que aborda questões como racismo, homofobia, classicismo e até questões como a masculinidade tóxica, trazendo personagens com diversas etnias, géneros, orientações sexuais, entre outros. Por outras palavras, a representatividade na arte surge quando pessoas são retratadas em uma obra com toda a complexidade e diversidade humana, não se limitando a um padrão midiático, centrado em homens, heterossexuais, ricos e brancos. Dessa forma, o cinema assume, ou deveria assumir, um papel de promoção do pensamento crítico e reflexão, do contato com diversas culturas e realidades, não raramente atrelados ao entretenimento. A arte tem, enquanto forma de expressão humana e disseminação de conhecimento, uma função essencial da emancipação de quem a realiza, mas também de quem a prestigia. 

Não são infundadas, então, as críticas feitas à indústria cinematográfica hollywoodiana, que por vezes apoia-se em estereótipos prejudiciais às funções supracitadas, voltada para a lógica do máximo lucro, disseminando uma cultura do “não-pensar”, do imediatismo e da alienação. Não quer isto dizer que o entretenimento tenha de ser sempre ligado à críticas sociais e profundas reflexões – mais do que isso, cremos que é importante que o cinema não se limite a uma lógica lucrativa, sendo, cada vez mais, um meio de inclusividade e não segregacionismo. 

Deste contexto, é, então, quase impossível analisar-se as grandes premiações do cinema hollywoodiano com um olhar crítico e não perceber uma profunda falta de diversidade e, o tema central que vamos pôr em causa nesta reflexão, o machismo estrutural enraizado em Hollywood.  

Segundo dados apresentados pela UN Women em suas redes sociais, em 92 edições dos Óscares, 5 mulheres foram indicadas para concorrer ao prêmio de Melhor Realizador, e quando se trata em Melhor Filme os dados não são muito mais otimistas, tendo sido indicados apenas 12 filmes realizados por mulheres. Na 92ª Edição, “Little Women da realizadora Greta Gerwig recebeu uma indicação para Melhor Filme – a realizadora, anteriormente indicada em Filme e Realização por “Lady Bird”, não recebeu os mesmos louros na categoria de Realização – e carrega consigo a rara “honra” de figurar nas principais categorias. Quando se discute sobre a ausência aos filmes dirigidos por mulheres, muito se fala e muito se ouve a respeito de falta de oferta, de pouco apelo midiático, de pouca qualidade – justificativas que são aplicadas apenas quando convém. A impressão que a academia passa é a de que, se há algum fator externo que o justifique (geralmente hype, lobby ou box offices elevados), há, na premiação, lugar para filmes medíocres se realizados por homens. Quando o assunto vira-se para filmes comandados por mulheres, apenas a perfeição interessa para pleitear (!) uma vaga. Fica, portanto, explícito que, na vida, homens e mulheres não estão sobre abrangência dos mesmos parâmetros. Qual seria, então, o motivo por trás disso?

Para muitos, é evidente que esta clara disparidade entre nomeações de homens e mulheres não será devida a uma falta de capacidade ou qualidades inferiores do trabalho feito por mulheres na indústria cinematográfica, mas sim ao já mencionado conceito de machismo estrutural – ou seja, na base do cinema ainda persiste uma “dupla bitola” na forma de se ver os trabalhos de homens e mulheres. Porém, isto ainda não é uma verdade universalmente aceite, justamente por que é muito mais cômodo tratar esse tipo de realidade com justificativas simplistas e superficiais do que estudar e aceitar a presença de desigualdades de género. Desigualdade esta que não é, e não pode ser tratada como uma realidade simples. É um problema multifacetado, complexo, e, principalmente, histórico (3). Direitos básicos das mulheres, como o direito ao voto, só se tornaram uma realidade muito recentemente, em Portugal só a partir de 1931, ou ainda o direito a trabalhar fora de casa sem autorização de um homem “responsável” (como seu marido ou pai). O papel da mulher era, e em muitas situações e contextos ainda é, limitado à ideia de cuidado com a sua família e casa, estando suas vidas condicionadas ou até instrumentalizadas aos interesses masculinos, como se pode ver no Código de Seabra. É compreensível, então, que, nas primeiras edições de premiações como o Oscar (1929), o número de mulheres indicadas às Categorias como melhores Realizadores, fosse nula – as poucas mulheres que conseguissem trabalhar nesta área não recebiam o devido incentivo financeiro, criativo e até psicológico, bem como reconhecimento por seus trabalhos. 

É preciso levar em conta, entretanto, que a emancipação da mulher e as lutas feministas não se iniciaram hoje. São também elas carregadas de um peso histórico, que levaram justamente a diversas conquistas que permitem que em 2020, a lista de filmes Realizados, Dirigidos, Escritos, e, porque não, também Protagonizados por mulheres, seja gigantesca. Apesar disso, as indicações para as premiações desses filmes ainda são reduzidas. O trabalho das mulheres no cinema é menosprezado, principalmente o feito por trás das câmeras, que acaba por ser o mais influente no conteúdo dos filmes em si. Essas indicações para os Óscares de 2020 evidenciam essa realidade – muito se avançou desde 1929, mas o caminho para a verdadeira igualdade de género ainda é longo. 

O portal Metacritic (agregador de notas dos mais influentes jornais e revistas do mercado) avalia filmes com base em média ponderada, usando uma escala de 0-100. No que diz respeitos aos indicados aos Óscares, os números consolidados para os 9 indicados são: “Parasite” (96), “The Irishman” (94), “Marriage Story” (93), “Little Women” (91), “Once Upon a Time in Hollywood“ (83), “1917” (78), “Joker” (59), “Jojo Rabbit” (58) – e é interessante notar que, antes de serem revelados os indicados, os 4 últimos tinham vagas praticamente garantidas ao levar-se em conta as indicações nas premiações anteriores e termômetros, enquanto alguns dos mais aclamados (nomeadamente “Parasite”, que ganhou força e acabou por ser o vencedor, e “Little Women”) pareciam lutar com tantos outros títulos pelas últimas vagas. A votação para Melhor Filme nos Óscares 2020 é feita pelos membros da Academia, que apontam os seus 8, 9 ou 10 filmes favoritos lançados no ano anterior. Após o anúncio da lista de indicados deste ano, um relevante ponto levantado caiu, novamente, sobre a aparente falta de representatividade quando analisados os indicados – e a resposta encontrada passa necessariamente pela composição do corpo votante dos Óscares, nomeadamente os membros da Academia. Desde 2016 vêm sendo implantadas políticas de inclusão étnica, racial e de género no corpo votante (não se trata de uma política espontânea, mas de uma resposta à edição que ficou conhecida como OscarSoWhite). Uma pesquisa da Los Angeles Times aponta que, em 2014, 76% dos votantes eram homens, sendo 94% destes brancos e com idade média de 63 anos. Naturalmente houve algum avanço, mas já em 2020 ainda não estamos onde deveríamos estar. É fundamental que, numa premiação como os Óscares, a bancada que carrega tamanha responsabilidade tenha, além da inerente capacidade técnica necessária para julgamentos do tipo, um quadro amostral que reflita de forma fidedigna a sociedade que ela representa, do contrário abre-se margem para resultados que fogem da realidade.

Feita essa contextualização, e levando em conta que, méritos completamente à parte, os indicados são selecionados com base nos filmes mais mencionados pelos milhares de votantes, tomamos a liberdade de imaginar a lista de um votante utópico que vá na contramão do consenso e que num universo com 9 filmes indicados à Melhor Filme, 8 sejam realizados por mulheres e um último por um homem. Além de um exercício interessante (e relativamente fácil – houveram grandes filmes que se encaixam no requisito lançados em 2019), ficam como recomendações esses grandes filmes e, com um pouco de curiosidade, grandes cineastas para acompanhar de perto! Sem mais delongas, segue-se abaixo os indicados:

The Farewell – realizado por Lulu Wang. Bem cotado no Globo de Ouro (incluindo um prêmio de Melhor Atriz) foi completamente ignorado nos Óscares. É semi-autobiográfico de Wang, majoritariamente falado em Mandarim e nele acompanhamos os desdobramentos de uma família ao saber que a querida avó tem pouco tempo de vida. A abordagem cultural do filme é cuidadosa e acolhedora, tem potencial para ser o filme favorito de uma geração.

Booksmart – realizado por Olivia Wilde. Filme de estreia de Wilde, é uma comédia coming of age, remete muito a uma versão millennial 2020 de “Superbad. O filme acompanha duas raparigas que, ao fim do secundário, percebem que aproveitaram pouco dessa época da vida e decidem compensar o tempo perdido em uma noite. É, nessa lista, um ponto de descontração muito bem vindo na maratona de 9 filmes!

High Life – realizado por Claire Denis. Um terror de ficção científica, é a estreia de Claire em língua inglesa. É tão visualmente atraente quanto desafiador. Talvez seja o filme mais divisivo da lista, mas é impossível terminar indiferente a ele. Até certo ponto confuso, mas recompensador. Bem resumidamente, e para não prejudicar a experiência, o filme acompanha pai e filha numa missão arriscado bem além do sistema solar. 

Hustlers – realizado por Lorene Scafaria. Outro filme reconhecido em outras premiações (especialmente pela atuação de J-Lo) e ignorado nos Óscares, “Hustlers é um drama, comédia, policial e que também vaga pelo suspense (ufa!) que acompanha strippers que se unem para aplicar golpes em corretores de Wall Street. O filme é original e extremamente bem dirigido. Um sucesso financeiro considerável no mundo todo.

Honey Boy – realizado por Alma Har’el. O drama acompanha a vida de um ator infantil quando ele se eleva do sucesso inicial para uma estrela autodestrutiva de Hollywood . O filme é baseado na vida de Shia LaBeouf, que atua como o pai abusivo do ator, e também roteirizou o filme. O roteiro foi escrito num período difícil da vida de LaBeouf, astro da franquia Transformers – os momentos em que ele estava internada em reabilitação.

Portrait of a Lady on Fire – realizado por Céline Sciamma. Um dos grandes filmes de 2019! O drama de época francês, candidato à Palma D’Ouro em Cannes, também não foi suficiente aos Óscares. Situado na Bretanha do século XVIII, “Portrait of a Lady on Fire” segue uma artista encomendada por uma nobre italiana para pintar um retrato de sua filha reclusa, que em breve irá se casar. É brilhantemente atuado, e estonteante do começo ao fim.

The Souvenir – realizado por Joanna Hogg. Um drama onde acompanhamos uma estudante de cinema tímida e ambiciosa começa a encontrar sua voz como artista enquanto navega em um namoro turbulento com um homem carismático, mas não confiável. O filme acompanha o desenrolar desse relacionamento abusivo em meio à vida e aos sonhos da protagonista. Uma trama urgente e muito bem amarrada.

Parasite – realizado por Bong Joon-ho. O posto guardado para o representante masculino está bem ocupado por esse filme sul-coreano – o primeiro do país a receber menção nos Óscares, e logo de cara figurando em diversas categorias principais. É um drama e suspense numa primeira camada, mas é, ainda, um brilhante e urgente thriller social numa segunda e mais interessante camada. Já nasceu um clássico. 

Little Women – realizado por Greta Gerwig. Por fim, mas não menos importante, trazemos a adaptação do livro homônimo de Louisa May Alcott, de 1868 e indicado à Melhor Filme nesta edição. O filme é um drama coming of age universal que acompanha a vida das irmãs March no período da Guerra Civil Americana. Bem dirigido, atuado, filmado e roteirizado é clássico mas também moderno na medida certa. Beira a perfeição em tudo que se propõe. Ainda sobre o filme, vale a pena alongar um pouco a discussão e mencionar que Greta Gerwig tem uma das direções mais elogiadas e inspiradas do ano. É de conhecimento geral que existem apenas 5 indicados em Melhor Realizador nos Óscares (face a 8, 9 ou 10 em Melhor Filme), mas é risível quando analisamos a sua ausência tendo em conta a presença de trabalhos relativa e notavelmente inferiores ao dela. Gerwig estar de fora aponta, para além de falta de vagas, para um machismo estrutural enraizado à nível global, bem exemplificado na composição do corpo votante. Não podemos deixar de apontar que a emancipação e reconhecimento das mulheres e seus trabalhos vêm crescendo. Mudanças significativas na sociedade estão cada vez mais presentes – uma mudança que decorre em passos bem mais curtos do que o ideal, é verdade – mas enquanto não se consolida, é dever do público fiscalizar e se posicionar a respeito de casos como este, o OscarSoWhite e de qualquer outro que fuja daquilo que coloque empecilhos naquilo que é o seu propósito – premiar, sem distinção, a excelência na arte de produção cinematográfica, sempre que possível incentivando trabalhos e obras que promovam a representatividade e discussões socialmente relevantes. 

Texto Redigido por João Eduardo Leal e Carla Chibeni

Notas:

(1) https://dicionario.priberam.org/representatividade

(2)   Entende-se que o machismo, enquanto a crença ideológica de que homens e mulheres têm papéis distintos na sociedade, expresso por opiniões e atitudes que favorecem o género masculino em detrimento do feminino, tem origens histórico-culturais, sendo inerente e normalizado em todos os aspectos de uma sociedade, por isso “estrutural”. 

(3) Tavares, Manuela; (2000), Movimentos de Mulheres em Portugal — Décadas de 70 e 80, Lisboa: Livros Horizonte. 

Ferreira, Virgínia; AAVV (2005), Direitos Humanos das Mulheres. Coimbra: Coimbra Editora e Ius Gentium Conimbrigae.


Publicado por SDDH/AAC

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