(con)tradições

(CON)TRADIÇÕES – REFLEXÃO SOBRE ALGUMAS PRÁTICAS ACADÉMICAS 

Evolução e ruturas

A Praxe da Universidade de Coimbra surgiu de forma natural e foi única durante vários séculos. A sua evolução e rupturas acompanharam as demandas sociais e políticas do país à época. Nela, estão compreendidos um conjunto de costumes aplicados pelos doutores, fiel a determinadas leis, como o Código da Praxe, tendo sido a sua primeira elaboração em 1957, na busca de tornar escritos os costumes até então transmitidos apenas pela fala.

A sua prática e vivência, apesar do caráter social integrador, exclui aqueles que se recusam a participar ou que com ela não concordem.

Nos seus primórdios, remetendo à Idade Média, vigorou o Foro Académico (“A Universidade gozava de grandes privilégios, (…) um deles era a isenção do foro comum, concedida a professores, estudantes e todas as pessoas da Universidade. A princípio estiveram sujeitos ao foro eclesiástico; mais tarde, a um foro privativo (foro académico). (…) Este foro especial só acabou com a implantação do regime liberal.”(BASTOS, 1920) e, mais tarde, a Polícia Universitária. Estes zelavam pelo cumprimento da Lei interna (e.g. cumprimento das horas de estudo e recolher obrigatório), cuja violação podia ser sancionada pelas autoridades universitárias, os chamados “archeiros”, sendo que as sanções poderiam ter pena na própria Prisão da Universidade.

Com o fim da Polícia Universitária e da Prisão Académica, em 1834, a vigilância dos novatos passou a ser transferida, gradualmente, para os/as estudantes mais velhos/as, que controlavam o recolher dos caloiros e asseguravam a preservação de um código ético. É nesse contexto que surgiram os primeiros rituais, sob a forma de trupes, investidas e outras práticas punitivas e humilhantes. Tem-se então este como um marco da origem da Praxe Académica.

É interessante relembrar que a Praxe não é o único conjunto de tradições existentes na esfera de Coimbra. A Latada e a Queima das Fitas são acontecimentos anuais que regulam o calendário universitário. Além disso, é importante incluir também as repúblicas no que se diz da cultura académica, visto que se encontravam como um dos principais locais dos actos praxísticos, afastando-se da Praxe apenas a partir de 1980.

Na década de 1960, em Coimbra, os rituais académicos passaram a ser usados como parte da resistência estudantil face ao Estado Novo, à Guerra Colonial e a um ensino considerado obsoleto.

A partir de 1969, principalmente após o 25 de Abril, os costumes académicos acabaram por ser fortemente rejeitados, juntamente com o poder fascista e as questões hierárquicas que a eles era assimilado. A crise académica de 1969 teve repercussões não apenas nas Praxes de Coimbra, com a sua ruptura, mas também teve consequências nacionais. Durante as manifestações, elementos tradicionais como o fado, transformado em canto de intervenção, o “luto académico”, encontrado no uso da capa e batina completamente fechadas, ou o hino académico, entoado no fim de um cortejo silencioso, constituíram uma “cultura de oposição.” Inclusive, é interessante relevar que, mesmo no que se tangia àqueles que se diziam contra a praxe, ou que com ela nada tinham a ver, utilizaram dos elementos da capa e da batina como símbolos de protestos. 

Entre 1978 e 1980, alguns elementos da Praxe Académica foram aos poucos sendo revividos. Esta recuperação desenvolveu-se em várias etapas: em 1978, com a ressurreição do fado; em 1979, com o apoio da direcção social-democrata da AAC, o surgimento de uma Semana Académica; e em 1980, com a realização de uma Queima das Fitas pública, o regresso da capa e batina e das Praxes.

O uso da Capa e Batina é outro elemento que merece destaque quando se inicia a história das Tradições Universitárias. Este foi sempre marcado pela influência religiosa dos clérigos que vestiam-se segundo a sua hierarquia. A Capa e Batina passa a assumir uma função de uniforme, na busca de distinguir os estudantes de outros mestres. Desta forma, no seu início, o objectivo principal da Capa e Batina não foi igualizar os estudantes, mas sim diferenciá-los na sociedade.

Nos século XVII a questão eclesiástica acentuou-se, com a utilização da “loba”, espécie de batina sem mangas. No início do séc. XVIII, esta dá lugar à “abatina” (conjunto de capa e túnica dos abades).

A atual Capa e Batina é resultado de um forte movimento anti-clericalista. Esse antagonismo para com a Igreja tem raízes em Marquês de Pombal, que quis acabar com o traje, demasiado “Jesuístico”, na reforma que fez, em 1772.

Ademais, apenas em 1910 é que o uso da capa e batina se tornaram facultativos. Além disso, em 1915 o traje feminino foi “inventado”, primeiramente nos liceus de Lisboa e de Porto, afinal, antes da data o ensino era exclusivo dos homens. Entretanto, apenas em novembro de 1924 que o governo decretou a permissão do uso de Capa e Batina aos estudantes de ambos os géneros nas Universidades.

No Porto, a adoção do traje feminino deu-se em 1946 e em Coimbra, apenas em 1954, sendo o primeiro por conta das alunas sócias do Orfeão e o segundo devido a ação das sócias do Teatro dos Estudantes (TEUC).

Como se configura, e que valores se perderam?

Hoje em dia, a Praxe é defendida, por muitos, como sendo um instrumento de integração dos caloiros (novos alunos na universidade) e, também, segundo um antigo membro da Comissão Organizadora da Praxe Académica (COPA) da Universidade Lusófona de Lisboa, um espaço onde se tem a oportunidade de “criar amizades e desenvolver laços de sólida camaradagem”.

No séc. XVIII, por exemplo, fazia parte da praxe escarrar em grupo sobre o novo aluno, o roubo ao caloiro era, igualmente, permitido. Esses comportamentos, mesmo que possam integrar os caloiros entre si, cumprem esse objetivo por meio da humilhação que eles sofrem em conjunto. Atualmente, no séc. XXI, estes hábitos foram descontinuados, mas outros, igualmente humilhantes, foram criados, alguns com base na herança militar da guerra das colónias: manter os olhos no chão, meter de quatro, posição do elefante, comer ração de cão, cortar o cabelo, entre outros. Além disso, algumas práticas se mantêm mas perderam seu significado, por exemplo, o raspanço pelas trupes, que antes tinha motivos sanitários (algumas pessoas tinham muitos piolhos), e agora serve apenas à diversão da trupe e à humilhação do caloiro.

Com o passar dos anos, a praxe tornou-se numa espécie de sistema de dominação-submissão, com consequências tanto a nível físico como psicológico. A segregação de pessoas não frequentadoras da praxe, que se torna evidente, e o fanatismo em torno das hierarquias e do “respeito” crescem imensamente, tal como refere Rui Bebiano, investigador da Universidade de Coimbra, em “Cinco Mitos em Torno das Praxes”, afirmando que um desses mitos é o “da aceitação entusiástica por parte dos novos alunos, os chamados caloiros”. Explica que “se tentarem resistir serão ostracizados, «desintegrados», por muitos colegas, quando não coagidos psicologicamente ou mesmo fisicamente”. 

Elísio Estanque, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, relata um dos vários casos existentes, relativamente à praxe, que poderiam servir de apoio ao que foi anteriormente dito: caso este em que repara num grupo de “doutores” que observava os seus caloiros a tomar banho num lago do Jardim Botânico; quando os interpela, afirmam que estão ali de livre e espontânea vontade. No entanto, como sociólogo e puro observador, Estanque não deixa de poder notar que “a expressão facial dos banhistas «voluntários à força» (tal como daqueles que são postos “de quatro” ou alinhados e obrigados a olhar para o chão, proibidos de rir, etc.) diz muito mais do que as palavras balbuciadas sob o olhar do «veterano» ou do «doutor»“. Enquanto há estudantes que aderem no seu ano de caloiro(a)  e, mais tarde, se afastam por não se verem na posição de “doutor(a)”, essa dominação-submissão de âmbito psicológico, exercida, consciente ou inconscientemente, no seio praxístico é ainda visível quando, por exemplo, certos caloiros não se revêem nas práticas verificadas, mas, no momento em que passam para o 2º ano e são eles a praxar os novos caloiros, aderem de forma entusiástica, como conta uma antiga estudante, “quando vesti o traje, senti-me outra”. Mudar de «posto» implica passar a atuar de acordo com o que se espera da nova «patente». Em que o estudante deixa de ser,  segundo o Código de Praxe, no seu art. 9º, estipula: “As categorias de “bicho”, “caloiro nacional”, “caloiro estrangeiro” e “Novato” têm a designação genérica de “animais” e as de “semi-puto” e superiores, a de “doutores”. Além disso, hoje não se vê, salvo muito raras excepções, caloiros vestidos de Capa e Batina, como sempre houve, incluindo estudantes do liceu, visto o traje académico servir de discriminação do estudante em relação ao futrica-civil – ao mesmo tempo que serve de supressor de desigualdades entre os estudantes, sob pena de desrespeitarem “doutores”. 

Impactos nos Direitos Humanos

Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e com a Constituição da República Portuguesa, Portugal passou a basear-se nos valores da dignidade humana, da igualdade e do Estado de Direito Democrático e Social, sustentado pela soberania popular. Princípios esses que não devem ter lugar simplesmente na forma da Lei, mas que devem ser reproduzidos materialmente nos vários ambientes sociais. Do mesmo modo que escarrar em grupo sobre alguém é considerado um atentado à dignidade da pessoa, assim como roubá-lo um atentado à sua propriedade, não se pode negar ser indignificante pôr um estudante mais novo de quatro, ou de olhos no chão, como sendo inferior ao outro. Além disso, num contexto em que se considera os estudantes de Coimbra “os cérebros da sociedade” e em que a generalidade da população tem noção da desigualdade entre géneros embrenhada na nossa sociedade e, até, cultura, é incontornável a assunção de que vários cânticos, tanto mais antigos como mais recentes, são perpetuadores dessa mesma desigualdade pelo seu conteúdo. A clássica “A Francesa” que diz “Conheci uma francesa, mas que puta de beleza, tinha sete palmos de mamas e uma cona bem redondinha”, é um bom exemplo de uma linguagem que reduz a mulher a objeto sexual, e que, reproduz a cultura machista de que somos herdeiros. Isso, consequentemente obsta à construção de uma sociedade igualitária quando a praxe é também um espaço de formação pessoal.

Portanto, sendo considerado um espaço de formação pessoal, interessa perguntar: Como e para quê estão a ser formados esses estudantes? Além de ser uma barreira num contexto de igualdade que se quer em uma democracia, também já se referiram os efeitos sócio-psicológicos que a hierarquia na Praxe pode ter sobre as pessoas. A transmissão da ideia do dever de obediência acrítica, da redução da vida académica às praxes de gozo e jogos com álcool e de conotação sexual, totalmente desconectadas da vida sócio-político-cultural da Academia e do resto do mundo, pode potenciar gerações com pouca consciência de participação na democracia. Ao mesmo tempo, podem afastar os estudantes das várias ofertas culturais e desportivas da A.A.C. que, ou as desconhecem, ou muitas vezes têm de despender um enorme tempo para com a praxe, o que inviabiliza sua participação em atividades diversas. 

A praxe e os seus rituais, são, não raras vezes, justificadas pela “Tradição” e pela “preparação para o mercado laboral”, “um espaço privilegiado de amizades para a vida” mas analisarmos o que ocorre em diversas praxes, sobretudo as de cariz psicológico, é visível que o ensinamento passa por o dever do caloiro ser ouvir, calar e obedecer, sendo estas ações anti emancipatórias. A tradição que nos deixaram em 1920, 1960, 1962, 1965, 1969, 1993 foi a da irreverência e luta estudantil por melhores condições pedagógicas, de democratização e asseguração do Ensino universal e gratuito. E essa tradição, apesar de ser lembrada em datas comemorativas, é pouco recordada na praxe dos dias de hoje.
No entanto, apesar dos diversos aspectos negativos já aqui abordados, a praxe muitas vezes pode – e deve – ser ambiente acolhedor de integração e auxílio aos caloiros que iniciam sua jornada académica. Estes deviam ir além da praxe; integrar os estudantes em movimentos diversos como o Cria’ctividade, núcleos estudantis, iniciativas artísticas e tantas outras variadas opções que a cidade dispõe deve ser missão primordial dos “doutores”.

Fundado em 2014 como uma alternativa à praxe, como o próprio se intitula, o Cria’ctividade é um movimento que vem a ganhar mais força e cada vez mais apoiantes, pois abre espaços diferentes de integração para aqueles que acabaram de chegar à cidade junto aos seus já cativados moradores; Assim como tantos organismos diferentes dispostos para o estudante na associação que o representa, podendo este escolher participar de teatros, coros e tunas, sócio-ativismo (SDDH, GE, núcleos), mídias (aCabra, TvAAC, RUC), visão astronómica (SAC) e tantas outras, ou até mesmo praticar diversos desportos que vão do andebol, basquete, e futebol até tiro com arco, xadrez e canoagem.
É também verdade que criam-se laços quase que familiares de honra e prestígio dentre os membros de cada grupo praxístico; Agora é necessário ir além deles e integrar nossos caloiros com o restante da comunidade coimbrã, sendo assim importante levarmos em conta a existência das PRAXES SOLIDÁRIAS e as PRAXES EDUCATIVAS, nas quais a primeira conecta o mundo mais desfavorecido ao estudante e a segunda que faz-se proveito de um ambiente informal para uma aprendizagem mais dinâmica e integrada.
Controversa, polémica e intrigante, o que sabemos é que a praxe é grande parte de Coimbra, de sua história e seu presente, sendo de extrema importância seu debate. Mesmo como tradição, sua atualização e reestruturação deve acompanhar os avanços mundiais,  para criar o melhor que Coimbra possa oferecer ao estudante que orgulhará-se-a de vestir a capa negra da saudade.


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