A discussão como o princípio da solução: uma reflexão em torno da Saúde Mental

Naquele que é o Dia Mundial da Saúde Mental, é importante colocar em destaque alguns aspetos sobre esta temática, que merecem atenção tanto no dia a celebrar a 10 de outubro, como no próprio quotidiano.

Criado pela Federação Mundial de Saúde Mental, este dia pretende destacar sua importância a nível global, transmitindo a ideia de que esta é uma realidade que pode atingir qualquer pessoa, não se cingindo a qualquer barreira colocada pelo ser humano.

É dito pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) que esta  não é apenas um problema de saúde, na medida em que, tem várias repercussões em diversas esferas do quotidiano. Assim, a saúde mental pode ser entendida como um completo bem-estar físico, mental e psicológico da pessoa. Segundo o Serviço Nacional de Saúde, a saúde mental é a base do bem-estar geral, abrangendo isto, entre tantos outros, a capacidade de adaptação a novas circunstâncias de vida; superação de crises e resolução de perdas afetivas e conflitos emocionais; ter projetos de vida; lidar de forma positiva com adversidades. De uma forma geral, saber lidar com as boas emoções e também com as desagradáveis e estar bem consigo e com os outros.  No entanto, nos dados emitidos pelo Relatório Health at a Glance 2018, Portugal é um dos países com maior prevalência de problemas de saúde mental da UE. É extremamente importante a maior consciencialização sobre o assunto, para que dessa maneira o apoio às pessoas possa ser mais adequado e eficaz.

É ainda importante a reflexão esta questão para o desenvolvimento das crianças, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 20% das crianças sofrem de algum problema ou transtorno mental e cerca de 50% tem início antes dos 14 anos. Sendo que as pessoas entre os 15 e os 16 e os 25 e 30 (população que está a começar a vida académica, inserção no mercado laboral, primeiros relacionamentos) que mais têm problemas com doença mental, com isto em conta será relevante referir vários sinais de tais problemas, tais como: irritação; queda de rendimento escolar; isolamento; verbalização de desespero; angústia e dor no peito. Veja-se o caso de uma pessoa que sofra de insónias, apesar de esta poder não ser uma doença dentro da catalogação do transtorno mental, ela irá igualmente apresentar sofrimento que afetará a sua saúde mental e, consequentemente, o seu rendimento profissional e/ou académico. Derivantes destas, poderá ainda surgir uma certa dificuldade nas relações socio afetivas a um nível pessoal.

Com isto entra a subjetividade desta área, pois ao contrário do que seria, por exemplo, uma qualquer doença física, uma doença mental não terá um resultado tão linear ou tão objetivo de diagnosticar como o primeiro teria, até porque, muitas vezes, as doenças do foro psicológico não têm resultado de um acontecimento isolado que as provoca, podendo ser um acumular de várias situações do quotidiano que agravam a condição da pessoa. A pessoa, só se aperceberá da gravidade da situação quando esta já estiver num patamar mais complicado, mais vulnerável, tornando a sua saúde mental frágil e vulnerável.

A diferença da Saúde Mental em relação com outros tipos de problemas de saúde, é o seu enquadramento social. Estas diferenças, no seu enquadramento social, deparam-se com diversas especificidades que intensificam o estigma e os preconceitos sobre da pessoa com doença mental nas diversas esferas da sua vida, o que tem sido uma realidade perpetuado tanto no tempo, como no espaço. O estigma está marcado por preconceitos associados a ideias de inferioridade e incurabilidade das pessoas com a patologia, podendo isto resultar na própria exclusão social de pessoas com este tipo de patologias. Segundo Foucault, isto terá até mesmo impacto no que era considerado saúde mental, e o que era considerado apenas como “loucura” por parte de qualquer pessoa que manifestava um comportamento visto como desviante. Existem, muitos outros exemplos que, ao longo do tempo, foram desacreditados ou associados a uma parte específica da população, tais como o caso da histeria que era visto como algo que somente afetaria a mulher, associando-lhe o estereótipo de “mulher louca”. Tal pensamento que vinha desde a antiguidade grega, seguida por nomes como Hipócrates, só veio a ser desmistificado com Martin Charcot e a psicanálise, onde é referido por Helena Riter, que foi este que veio apresentar a ideia de que os homens também poderiam ser histéricos, e assim desenvolver o estudo da histeria a nível científico, onde foram descobertos sintomas como dores de cabeça e perda da sensibilidade em certas partes do corpo. Com isto se percebe que até a própria consideração daquilo que era visto socialmente como doença mental, retrata a carência desta área do conhecimento.

Neste caso, o estigma é algo extremamente importante dentro do tema da saúde mental, pois condicionará em vários aspetos este tipo de problema, seja na forma em que o tratamento  é dado, ou na forma como o doente se vê ou, ainda, na forma como a sociedade encara a pessoa com uma doença mental. Consideremos o caso específico de uma pessoa que sofre de depressão. Devido à descrença que existe a nível social sobre a mesma, onde se diz popularmente que quem afirma ter depressão é alguém que- passo a expressão- “não bate bem da cabeça”, esta pessoa tenderá à partida a desvalorizar a sua própria condição pessoal e consequentemente evitará pedir ajuda profissional, o que poderá resultar num agravamento desta sua condição, resultado da falta de um acompanhamento especializado. Seguindo esta mesma ideia, e também causado por um estigma internalizado na sociedade, o próprio tratamento deste tipo de doenças, sofrerá uma carência no seu desenvolvimento, quando comparado a outros tipos de tratamentos, como por exemplo, os de carácter mais físico. Por exemplo, segundo o estudo realizado por Link e Phelan, apud José F. Sousa, em O Estigma da Saúde Mental, é indicado que houve um menor investimento monetário na saúde mental e com isto as próprias taxas de recuperação de doenças mentais não registaram mudanças significativas, ao contrário das taxas de recuperação de condições físicas severas, onde o investimento tem sido superior. Isto resultará em serviços clínicos mais pobres neste ramo da saúde, o que põe em causa o próprio direito de todo e qualquer cidadão, no acesso à saúde, pois este é-lhe condicionado pelas consequências que derivam deste estigma. Numa notícia publicada no site da SIC Notícias a 11.07.2019, que dá conta que em Portugal, o investimento na Saúde Mental tem sido parco, fundamentando isto apresentando o número de psiquiatras que havia em 2015 no país, 12 por cada 100 mil habitantes, e 0.285 psicólogos por 5 mil habitantes, havendo um défice de 1. 600 psicólogos para os que são recomendados internacionalmente. Este é um exemplo que retrata o défice de investimento na saúde mental no nosso país. Para além deste problema, também o elevado valor associado aos tratamentos destas doenças, seja no acesso a um profissional da área, seja o custo excessivo da medicação receitada, condicionam a possibilidade de muitos pacientes considerem ter um tratamento adequado. Com este, o próprio direito de acesso à saúde, vê-se novamente com certas restrições.

Muitas vezes o tratamento é feito tendo em vista apenas o processo médico na intervenção do problema, onde, por exemplo, o abuso na medicação que é receitada, não abordando várias alternativas tais como a atividade física – incluindo yoga, meditação-, medicina alternativa, como a acupuntura, e padrões de alimentação saudáveis, que segundo o estudo de Julia Rucklidge ajudam em vários transtornos, entre eles a bipolaridade, ansiedade, stresse e transtorno pós-traumático. Dainius Pūras, especialista da ONU, refere o que considera ser um uso excessivo da medicalização da saúde mental e de intervenções biomédicas, em tratamentos ligados à saúde mental, como a depressão e a prevenção do suicídio. Apesar da importância deste tipo de intervenções, Pūras destaca que usar estas como “primeira linha de tratamento é infundamentada pelas evidências científicas”, e o combate a abusos e desigualdades sociais é fundamental, visto que podem estar na origem da própria patologia.

Visando uma quebra com o estigma, é fundamental uma mudança na forma como a Saúde Mental é encarada. Esta mudança é possível ocorrer através da fomentação de um maior diálogo geral sobre o assunto, pela educação para estas temáticas e por hábitos de leitura sobre estas, que certamente terão impacto nos preconceitos existentes, substituindo-os por conhecimentos e modelos de intervenção adequados. Assim sendo, pretende-se tornar mais habitual a partilha da palavra sobre a Saúde Mental, seja através da procura de uma maior visibilidade para as vozes que contam estas experiências na primeira pessoa ou na divulgação de conhecimento adquirido. A partir destas medidas, busca-se uma maior compreensão, por parte da sociedade, sobre aquilo que é a Saúde Mental, resultando isto numa maior facilidade de procura de ajuda pela população no seu geral, pois o assunto será assim desmistificado e normalizado.

Posto isto, será importante referir que sofrer de uma qualquer doença mental não é algo que nos torne inferior a uma outra qualquer pessoa, sendo algo que podendo atingir qualquer um de nós é comum e nos deixa a todos em pé de igualdade.  Sendo uma doença, é normal que se peça ajuda, pois ninguém espera que uma pessoa seja capaz de recuperar sozinha. Os profissionais da saúde estão disponíveis para atender qualquer pessoa que se veja de alguma maneira incapaz de realizar qualquer tarefa do seu quotidiano, ou que simplesmente não se esteja a sentir tão bem. Reforçamos ainda a importância dos laços sociais, da atividade física, do convívio para o bem-estar da pessoa e/ou para o processo de intervenção.

A Saúde é um Direito Humano! Para mais informações sobre este tema, poderá consultar o Relatório Primavera 2019: Saúde, um Direito Humano.

Solicitar apoio, para o próprio ou os que o rodeiam, é um ato natural e essencial. Deixamos algumas referências de onde poderá encontrar informações ou apoio.

SOS voz amiga SOS Estudante Centros de Saúde

Texto redigido por Carla Silva, estudante da Licenciatura em Sociologia

Foto por Ümit Bulut on Unsplash


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