Já fomos todos refugiados

Imagem de Antoine Merour

Os seres humanos não são uma espécie que costumam ficar no mesmo lugar. No início da nossa existência, a escuridão e o risco de morte eram o que nos impedia de ir adiante. Isso foi resolvido após aprendermos a usar fogo. Desde então, ninguém nunca mais ficou parado.
Há teorias de que aparecemos em alguma área do continente africano, mas poderia também ter sido na Oceânia. Independente disso, acabamos nos espalhando. Por estarmos distribuídos em regiões diferentes, com clima e alimentação diversas, acabamos nos diferenciando culturalmente. Nossa forma de pensar e de agir mudava dependendo do lugar do mundo em que estávamos estabelecidos. Mas algumas coisas mantiveram-se. Porque, independentemente de estarmos longe fisicamente, pertencemos ainda à mesma espécie humana. A sua fome se iguala à minha, onde quer que esteja no mundo. Assim como a expectativa, o medo, a sede, a vontade de viver.
Um dos maiores fluxos de movimentação humana transnacional dos últimos séculos veio da Europa com direção aos outros continentes. As razões eram principalmente ligadas à sobrevivência. A vontade de viver em um lugar que oferecesse mais possibilidades. Longe da guerra, da fome, da pobreza, da perseguição política. Hoje o mundo observa uma nova movimentação. O caminho se inverte. O continente europeu têm recebido um exorbitante número de pessoas vindo de outros países. Assim como a Turquia, que recebe o maior número de refugiados, o Paquistão, a Uganda, o Sudão. Chamaram o processo de crise dos refugiados. Mas podemos, de fato, reduzir a crise somente aos refugiados?
Os seres humanos sempre se movimentaram, mesmo em massa, por diversas regiões do mundo. Tais como as diásporas gregas, os períodos de invasão colonial no hemisfério sul, as colônias de povoamento da América do Norte, ou a imigração em massa em direção ao Brasil no início do século XX. A crise talvez seja da própria Europa, ou dos demais países considerados desenvolvidos, que fecham suas fronteiras aos que estão fazendo agora o caminho inverso. Eles puderam sair, mas agora ninguém pode entrar.
Segundo a Convenção de 1951, relativa ao Estatuto dos Refugiados, são refugiados as pessoas que se encontram fora do seu país por causa de fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possa (ou não queira) voltar para casa. (ACNUR – Agência da ONU para Refugiados) 70 milhões de pessoas se deslocaram forçadamente pelo mundo. As origens vêm de territórios em conflito, guerras, perseguições. E é fundamental lembrar que imigrantes são diferentes de refugiados. O indivíduo que busca refúgio não tem opção e não pode ou não quer voltar para casa. Porque a situação em seu país de origem pode colocar em risco sua vida.
As políticas globais deveriam estar alinhadas de forma a adequar-se para resolverem a situação. Mas, cada vez mais, observa-se um movimento contrário dos Estados e as soluções. A França recentemente impediu o trabalho da organização Aquarius, que resgata refugiados no mar Mediterrâneo. Portugal está condenando alguém que salva pessoas que teriam morrido afogadas. Diariamente, morrem centenas de pessoas tentando cruzar o mar, em condições perigosas. Elas vêm de diversos países, mas todas têm a mesma motivação: sobreviver. Famílias só colocam seus filhos em uma embarcação lotada, tentando cruzar o mar, em uma viagem de vários dias, que pode lhes custar a vida, porque o que deixam para trás era inviável.
O dia 20 de junho celebra e lembra os indivíduos que estão em busca de outra realidade. Indivíduos que fogem de situações de guerra. Perseguidos políticos. Pessoas que lutam por suas vidas. Lemos sobre elas todos os dias nos noticiários, mas elas estão passando e vivendo tudo isso. Cada história merece ser respeitada, e merece uma resposta, mas, acima de tudo, uma ação da comunidade internacional. A mobilidade faz parte da história humana, e tentar viver não deveria ser considerado um crime.
Autora: Arissa Ayumi Watari Silvério

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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