A Grandeza dos Pequenos Gestos

Você conhece “Doctor Who” ?

A série de TV da emissora britânica BBC completou neste ano 55 anos no ar, sem qualquer”reboot” ou novas versões , a temporada atual continua com a mesma história e o mesmo protagonista que começou em 1963: The Doctor. O Doutor/Doutora, na série, é um Alien do Planeta Gallifrey, que viaja através do tempo e espaço em sua nave chamada T.A.R.D.I.S ( Time and Relative Dimension in Space), que por fora é uma cabine telefônica da polícia londrina dos anos 60 (uma forma de disfarce), mas por dentro é praticamente infinita.  A premissa base para a série continuar por tantos anos com a mesma história e personagem (sendo considerada pelo Guiness Book, a série mais longa da história) é que quando o personagem principal está a beira da morte, ele/ela se “regenera”, trocando de corpo (e assim, alterando o ator/atriz principal), personalidade e etc, mas, se mantendo o mesmo personagem, com toda a sua história.

Porém, o mais interessante nessa série são as lições de vida e história que ela transmite ao público. Na Atual temporada, tivemos grandes surpresas, com a primeira mulher a assumir o papel de Doctor ( Jodie Whittaker), e, recentemente, com a abordagem da segregação racial a partir da história de Rosa Parks, no episódio “Rosa”.

Nesse episódio, a Doctor e seus amigos (Graham O’Brien (Bradley Walsh), Ryan Sinclair (Tosin Cole) e Yasmin Khan (Mandip Gill))  são levados ao Alabama, EUA,  1955,  para se assegurarem de que a história não se altere, garantindo que Rosa Parks (Vinette Robinson) se tornará uma figura fundamental no movimento dos direitos civis dos Estados Unidos. Para isso, precisam impedir um criminoso viajante do tempo do futuro de alterar o famoso episódio do ônibus, em que Rosa se recusou a se levantar para um branco.

Para contextualização, no Alabama, assim na maioria dos estados do sul dos Estados Unidos, a segregação racial era tão forte que existia até mesmo uma legislação para a existência de assentos exclusivos para pessoas brancas (os assentos mais à frente dos ônibus), enquanto os negros deveriam ocupar os assentos da parte traseira e, caso houvesse mais pessoas brancas do que o número de bancos disponíveis, as pessoas negras deveriam ceder o lugar para os brancos e ficarem em pé atrás. Em 1º de Dezembro de 1955, Rosa Parks se recusou a ceder o seu lugar e foi presa. Essa ação deu início ao movimento conhecido como “boicote aos ônibus de Montgomery”, que acabaria com a segregação no transporte público no estado, fortificando a luta pela igualdade racial no país.

 

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Hotéis da época com a placa “Apenas para Brancos” @bbc

O episódio trata da segregação racial nos Estados Unidos na época, incluindo a lei de segregação no transporte municipal do Alabama sem censura, demonstrando hostilidade do local, especialmente para Yas e Ryan, que sofrem por todo o episódio com diversas formas de preconceito (incluindo agressões) em todos os lugares que passam.

Em um dos grandes momentos do episódio, Ryan demonstra insatisfação em não poder alterar a história, pois,  mesmo com as ações de Rosa Parks em 1955, o racismo ainda existe na época dele (2018) e ele vive isso todos os dias. Em uma fala de esperança, Yasmin diz que é graças a pessoas como Rosa, que o futuro, ainda que não seja perfeito, aos poucos está se tornando um lugar melhor.

O ápice do episódio ocorre quando a Doctor e seus amigos percebem que são parte da história pois, ao buscarem garantir com que o evento do ônibus ocorra, Graham acaba sendo o motivo que faz com que o motorista do ônibus ordene que Rosa ceda o lugar, levando a recusa de Rosa e a sua prisão. O Desespero visível no rosto do Bradley Walsh, de ser o responsável pela prisão de Rosa transmitiu perfeitamente o sentimento de impotência telespectador, e até mesmo da própria Doctor, que permanece inerte para que a história de Rosa não fosse alterada.

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Graham O’Brien (Bradley Walsh) @BBC

Por fim, A Doctor ainda demonstra que a luta de Rosa apenas havia começado, passando por múltiplas batalhas, até o seu reconhecimento formal na década de 1990, recebendo um prémio do presidente Bill Clinton.

O Racismo é um problema que mesmo após 63 anos da luta de Rosa, infelizmente continua a afetar a sociedade em uma escala global, causando inúmeras desigualdades e falta de união. A grande lição que se obtém do episódio é a de que pequenos gestos podem mudar o mundo. Se a Doctor e seus amigos nada podiam fazer pois a história já havia acontecido, nós, no presente, podemos construir uma nova história através dos pequenos gestos no dia a dia.

Vinícius Pereira

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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