Quando o brilho de um Nobel da Paz se apaga

            A história de Myamar nunca foi das mais simples a ser explicada. Ela esteve marcada por lutas por poder entre as inúmeras etnias, por subordinação à impérios coloniais e, por uma ditatura que durou mais de 50 anos.

             Desta ditadura, surgiu Aung San Suu Kyi, também conhecida como dama, símbolo da defesa dos direitos humanos na Ásia. Entretanto, quando se trata das minorias existentes em seu país, especialmente em relação à minoria Rohinhgya, essa determinação e vontade de lutar pelos direitos humanos parece se desvanecer.

       Filha do herói nacional da indepêndencia de Myamar, General Aung Sand e da embaixadora de Myamar na Índia, Khin Kyi, Aung San Suu Kyi foi a principal opositora do ditadura militar que se manteve no seu país até 2015. Fez isto, através de um movimento pacífico organizando comícios e viagens pelo país a exigir uma reforma democrática e eleições livres. Por esta luta pela democracia, ela ganhou um Nobel da Paz em 1991.

      Não é a primeira vez que a minoria Rohingya sofre pela violência do exército birmanês e gera uma fuga em massa para Bangladesh, o que já aconteceu outras três vezes. Entretanto, o que diferencia esta das outras, é que o exército birmânes está com um projeto de limpeza étnica muito mais organizado e de carácter definitivo.

          Já sem direito à nacionalidade birmanêsa desde 1982, e com restrições à liberdade de movimento, à eduçação e à saúde. Agora, o último direito que restou está lhes sendo retirado: a sua própria existência como etnia. O que segundo a ONU, acabou por se tornar uma das mais graves crises humanitárias deste século, tendo cerca de 700 mil rohingyas em campos de refugiados em Bangladesh.

          Uma serie de ataques feito por um grupo militante Rohingya que causou a morte de 12 militares oi a razão para tanta violência. Entretanto, isto não justifica os ataques à 471 aldeias, o estupro de mulheres e a morte de civis e em especial, de crianças.

          E onde está a “carismática dama” Suu Kyi no meio deste conflito? Atualmente, ela é Conselheira de Estado, cargo que foi criado para contornar a lei que a proíbe de ser presidente, por ter sido casada com um estrangeiro, e está a utilizar da sua autoridade moral e política para negar a existência não só dos atos cometidos pelo exército como também a própria identidade da minoria Rohingya.

   Com isso, tanto a ONU como outros ganhadores do Nobel da Paz, como Malala Yousafzai passaram a questionar e até mesmo condenar as suas acções neste conflito étnico. O brilho da dama se apagou aos olhos da comunidade internacional ao negar a outros os direitos que ela própria reivindicou para si mesma.

Yasmin Calandrini

 

Publicado por SDDH/AAC

A SDDH/AAC é uma das dezasseis secções culturais da Associação Académica de Coimbra. Fundada em 1997 encontrou-se, desde logo, na causa da sensibilização e promoção dos direitos humanos junto da comunidade académica, mas não só. Desde o início, o seu objetivo principal foi o da denúncia das diversas violações de Direitos Humanos, através da informação, formação e educação de todas as temáticas relacionadas com estes, tendo como público-alvo o estudante universitário de Coimbra. Neste sentido, a SDDH/AAC realiza projetos “para os estudantes e pelos estudantes” tentando chegar cada vez mais perto dos seus pares, incentivando um espírito crítico, atento e ativo perante as problemáticas que ocupam a atualidade no âmbito dos direitos humanos. Desenvolvem-se projetos com formatos diversificados, procurando corresponder às várias recetividades encontradas no meio académico. Ao mesmo tempo, a SDDH/AAC procura desenvolver parcerias com instituições e entidades da cidade de Coimbra com missão semelhante de forma a contribuir para a sensibilização, educação e formação a nível local e nacional. A Secção tem uma presença ativa nas redes sociais, característica que se advinha essencial na pretensão de chegar aos estudantes e de promover o ativismo junto da juventude. A equipa é constituída por estudantes das mais variadas áreas, desde as ciências sociais às ciências da saúde, passando pelas ciências exatas. O trabalho é desenvolvido em equipa no sentido de promover o desenvolvimento de soft skills e o profissionalismo. Todos os sócios contribuem de forma voluntária nos projetos do seu interesse, permitindo que todos possam propor, coordenar e participar em causas que lhes sejam próximas.

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